"Eu? Eu não sou
Charles!"
Sergio Lessa*
O único sinal de que
nem todos estavam cegos à realidade era um solitário cartaz, "Moi, je ne
suis pas Charles!", na esquina da praça em que, na noite anterior, a
prefeitura de Haia, na Holanda, promovera sua manifestação contra o "terrorismo".
Menos de dois dias
depois, uma multidão de franceses foi às ruas pela "unidade" ao redor do Estado contra o inimigo
público número um: cidadãos franceses tidos por "radicais muçulmanos". Todos
eles filhos dos trabalhadores imigrantes que o capital francês trouxe da
periferia de seu império para produzir a mais-valia absoluta de que necessita. Enquanto
filhos imigrantes, são subfranceses.
Deveriam não se revoltar, portanto, contra a condição a que são delegados: o
maior desemprego, os piores trabalhos, os menores salários, as piores escolas,
as piores moradias, os piores serviço públicos e – claro, de quebra, porque não
há mal que venha só – a truculência das forças da ordem.
O que os eventos de
Paris evidenciam é que há duas Franças: aquela que produz a mais-valia absoluta
sem a qual o capital não se reproduz, e aquela outra, que parasita esta riqueza
produzida também pelos imigrantes. Parte do proletariado francês, sua
aristocracia acima de tudo, faz parte do bloco dos parasitas: daqui a posição
da maior parte dos sindicatos e organizações dos trabalhadores. Quando não
apoiam a repressão ao "terrorismo", se escondem atrás de um revelador
silêncio.
Uma expressão politicamente de direita da revolta dos
trabalhadores miseráveis da Franca, o ataque à sede do Charles Hebdo, é aproveitada pelo Estado francês para promover uma
gigantesca manifestação contra os mais miseráveis dos trabalhadores franceses.
Havia radicais
muçulmanos a serem mortos antes das aventuras imperialistas francesas? Havia
radicais muçulmanos a serem mortos em Paris até terem trazido imigrantes para
serem explorados em solo francês? Os
sub-humanos têm – ou não -- o direito de serem elevados a humanos?
Não houvesse o
imperialismo francês reduzido à miséria suas colônias e transferido uma parcela
de seus trabalhadores para ser explorada na própria França, os chargistas do Charles Hebdo ainda estariam vivos. Os
reféns do supermercado não teriam sido sequestrados e os três jovens não teriam
pego em armas. Os policiais também não teriam perdido suas vidas. Não fosse a
França uma nação imperialista, todos estariam vivos. Qual é a causa? Qual o
causado?
Os jornalistas do Charles Hebdo mereciam morrer? Claro que
não. Mas também não mereciam os reféns, nem os policiais, nem os três jovens
que pegaram em armas. O imperialismo francês matou a todos. Defender a morte de
uns e condenar as dos outros não passa de hipocrisia: velar as causas,
glorificar as consequências. Nesta disputa pela direita, o que decide não é a
razão, mas a força! Aquele que ficar vivo por último, "muçulmano" ou
parasita, ganhará também o direito (pela força, porque o direito sempre vem
pela força) de dizer que "o outro" era aquele contrário à
democracia...
As origem e essência do
problema não se situam em um confronto civilizatório nem residem no "radicalismo"
de alguns jovens muçulmanos. Estes são apenas as consequências pela direita do espectro político. Não
haverá medida capaz de superar tais consequências se as causas não forem
removidas. "Je suis Charles"
é apenas expressão desta "unidade nacional" que toma as consequências
por causas e que oferece como solução o aumento da repressão e da vigilância
sobre os trabalhadores mais pobres.
Além disso, qual a
democracia esta "unidade" defende? A verdadeira democracia! Aquela
que garante eleições enquanto elas não ameaçam o status quo, aquela que promove Guantánamo e os centros de tortura
secretos – aquela que impõe pela força do imperialismo, mundo afora, o que é
imprescindível ao capital em sua crise estrutural. Hoje, na França, as
restrições à liberdade de imprensa e de manifestações, já antes presentes,
estão ainda maiores. Jornalistas e chargistas estão sendo processados por suas
posições políticas à esquerda, um cidadão francês protestou em voz alta em
frente a uma delegacia e pegou quatro meses de prisão, o "incitamento ao
terrorismo" e interpretado pelo Estado francês de modo tão amplo que a
fronteira entre a democracia e a ditadura vai se tornando cada vez mais tênue.
Este é o conteúdo da "unidade" ao redor do Estado francês: fortalecer
a repressão e legitimar a perseguição aos cidadãos franceses contrários ao status quo.
É por esta
legitimidade que promovem o movimento "Eu sou Charles". É por essa
razão que nós não devemos ser Charles.
* Membro do Instituto Lukács - Núcleo Maceió/Alagoas.
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