A Marcha Grande

domingo, 29 de março de 2015

Pedro Jorge de Freitas
Espaço Marx de Maringá
 Instituto Lukács - Núcleo Paraná




     A luz amarela acendeu para o governo do PT. Mas não foi ontem, na massiva, mas pouco eficaz, manifestação que ganhou as ruas do país. Foi há dois anos, nas manifestações de junho de 2013. Naquele momento, evidenciava-se que o projeto político do social conservadorismo começava a dar sinais de estafa e que não seria mais possível prosseguir preservando a política econômica pautada na preservação dos interesses do grande capital financeiro ao mesmo tempo em que lhe dava um verniz, ainda que de bons resultados tanto políticos como sociais, mais à esquerda com os programas sociais. As manifestações de 2013 eram legítimas, apontavam um sentimento difuso de insatisfação, que se adensava a partir do momento em que as demandas sociais não eram atendidas na medida do exigido e que a este não atendimento somava-se uma crescente descrença nas chamadas instituições políticas.

   O PT fez de conta que a conversa não era com ele. Antes procurou apontar o dedo aos manifestantes e desqualifica-los. Sentou-se, por exemplo, sobre a legitimidade de um programa como o Mais Médicos, não reconhecendo a sua limitação e a necessidade de se ir muito adiante neste campo, preferindo travar a luta pequena contra os segmentos médicos mais conservadores que viam no programa uma ameaça à sua condição profissional. Enquanto o PT se empenhava neste épico combate com meia dúzia de médiquinhos da Avenida Paulista, e verberava contra eles os inflados números de atendimento do programa citado, a saúde pública continuava abandonada. Ao povo que sofria nos corredores do hospitais, a luta do governo contra os mediquinhos era coisa completamente alheia à sua vida.

    A saúde é apenas um dos exemplos que se pode dar acerca da forma politicista com que o PT decidiu governar. O mesmo comportamento pode ser estendido às demais áreas do serviço público. O politicismo consiste em tomar a esfera política como a determinante da existência social, de tal maneira que será sempre no campo da política que todas as contradições se desvelarão. Na prática, o politicismo é aquela ideia de que a cada problema que apareça o governo deverá imediatamente responder com um programa paliativo que nunca vai à raiz da questão. A pulverização dos problemas impõe a pulverização de suas soluções e, soluções pulverizadas, sabemos, nunca são verdadeiras soluções. Ocorre que, na realidade, a esfera política é que é determinada pelas contradições sociais de tal maneira que a não intervenção sobre estas leva sempre ao seu aguçamento e, ao mesmo tempo, à impossibilidade cada vez mais patente da sua resolução pelos meios políticos. 

    A não resolução das contradições sociais, ou pelo menos o enfrentamento das suas consequências pelas vias políticas assemelha-se ao enfermo que reza cotidianamente para recuperar a sua saúde. Como esta não apresenta melhoras porque exige que se faça uma intervenção sobre as causas da doença, a conclusão a que chega o pobre ser exaurido pela doença é que lhe faltou fé, razão pela qual deve, de ora em diante, rezar ainda mais. Assim, os politicistas creem que o fortalecimento político se dá não no enfrentamento das questões sociais, arregimentando para o combate as massas beneficiadas por estas intervenções, mas, ao contrário, que o fortalecimento dá-se pelo conjunto de alianças no interior das instâncias políticas, das forças que supostamente teriam estas massas sob seu comando. Desta forma, os grandes contingentes necessários à promoção de qualquer transformação significativa ficam, de saída, reduzidos à condição de moeda de troca dos caciques políticos operando-se a sua deseducação e desmobilização.

    Isto pode funcionar ocasionalmente, para assegurar ao governo a base necessária para ganhar tempo para preparar-se para a luta que realmente interessa. Mas, como no caso do PT, a escolha já fora feita e a luta deveria ser travada no interior das instâncias políticas, o politicista sempre considera-se despreparado para travar o combate real, até porque, toda vez que pensa em faze-lo, as contradições sociais já se adiantaram e já se apresentam mais intensas, o que faz com que se sinta cada vez mais abatido. Como nosso doente do parágrafo anterior, a solução é mais uma vez rezar, rezar o catecismo dos adversários políticos e formar com eles novas alianças.

   Alianças políticas, no entanto, custam dinheiro. O parlamento não é exatamente uma legião angelical. Sua função, ao contrário do que dele se diz, não é ser o lócus dos grandes debates acerca dos problemas nacionais. Menos ainda é a casa do povo. Ao contrário, sempre foi, é e será um poder que se organiza contra este povo. É parte da forma política com que se organiza a sociedade assentada na exploração capitalista. Ali, tudo e todos se vendem e as honrosas exceções continuarão a ser precisamente isso, honrosas exceções.

    O PT pareceu não ter-se perturbado com isto. Lula, que dissera ser o parlamento o local de encontro de trezentos picaretas, “amadureceu” ao ponto de passar a considerar a “política como a arte do possível”.  Mas, de que possível fala o grande chefe¿ Claro, do possível demarcado pelo leito do politicismo, do possível posto pelo jogo de alianças, do possível posto pela moeda de troca, pela barganha, pela corrupção.

    Que fique claro, portanto, que não foi o PT que inventou este jogo. O jogo da corrupção sempre existiu e continuará existindo em qualquer sociedade de classes. Ele é inerente, não só, mas também ao modo de produção capitalista. Não existe capitalismo sem corrupção em todas as esferas e, particularmente, na esfera política. O que o PT fez foi aceitar este jogo, fazer parte dele, nadar de braçadas no mar de lama. Ou como reconhecem seus militantes mais honestos ou mais cínicos, se os outros fazem, por que nós não podemos fazer?

    O problema não seria maior se esta agremiação partidária tão parecida com as demais, com quem convive de forma mais ou menos amistosa, não tivesse se apresentado ao eleitorado, especialmente nos seus primeiros anos de vida, como a alternativa de uma transformação socialista da sociedade; se não tivesse se apresentado como o Partido da classe que todas riquezas produz mas que delas não se apropria; se não tivesse adotado a bandeira vermelha que sempre representou a luta dos despossuídos contra a opressão e a exploração; e, em um patamar mais baixo, se não tivesse se apresentado como paladino da moralidade.

    Assim, no agravar-se das condições de vida, quando o verniz social vai perdendo seu brilho, o que mais evidencia-se é o lado indefensável da sua prática política. As massas, sempre relegadas ao plano espúrio das negociações e apoios políticos, começam a exigir o que lhes é de direito, ou seja, o protagonismo da vida em sociedade. Já não tendo mais a que santos apelar, tão vasto é o leque de alianças que a nada levou, a combalida agremiação política acuada - que interessante! -  na solidão do poder, nada mais pode fazer senão apelar a mais rezas, não a este ou aquele santo em particular, mas a uma reforma política abstrata que, em um passe de mágica, moralizaria a política brasileira e varreria seus adversários do espectro político. Firma esta crença no fim do financiamento privado de campanha, com uma auréola de santidade como se seus parlamentares nunca tivessem feito largo uso deste reprovável procedimento. O castelo começa a ruir.

     O flanco aberto pelo qual as hordas direitistas sentem-se fortes para atacar pouca importância teria se o ataque viesse apenas a por uma pá de cal sobre a impostura petista. Mas quão iludidos estaríamos se imaginássemos que se contentariam com isso. O alvo é o PT pelo qual nutrem desprezo não pelos vícios aqui apontados, mas por suas pontuais virtudes. Mas sua ira estende-se a tudo que possa, mesmo que longinquamente, lembrar a construção de uma nova sociedade. Os generosos sonhos de uma sociedade sem classes estão hoje distantes dos corações e mentes das massas.

   Por outro lado, a desilusão, a insegurança com o futuro, o medo de apostar novamente em promessas de transformação, a desconfiança nas instituições políticas acompanhadas pela fé inquebrantável no Estado, especialmente no Estado que possa moralizar a política por via das armas e criar as condições de florescimento de uma suposta cidadania, a deseducação e desmobilização postos pelo pensamento único de que a luta de classes não existe mais, o reforço dos preconceitos nacionais como catarse para todo padecimento, enfim, todo um corpo de ideias contraditórias entre si, está jogado ao ar a espera de uma mão qualquer que o conduza a algum lugar que ele não consegue formular onde é.

    Por isso, foi tragicômica a Marcha dos Idiotas realizada ontem por todo país. Ela conseguiu reunir as velhas viúvas da ditadura militar, outros que querem uma intervenção militar constitucional, uma juventude beócia que confunde privatização com liberdade, uma classe média doentia que se põe a falar sobre Cuba e Venezuela sem jamais ter lido qualquer coisa a respeito destes países, gente que confunde o PT com comunismo, Lula com Karl Marx, que pede o fim da corrupção, mas que irrita-se quando se fala em sonegação ou escândalo HSBC, que pede o impeachment da Dilma imaginando que isto fará de Aécio o novo presidente, gente que votou em Collor mas que hoje usa camiseta escrita Dilma com dois “ll”, fiéis tentando exorcizar o mundo do capeta do comunismo, madames esbravejando contra o bolsa-família, covardes que veem ali uma chance de parecerem valentões, oportunistas em busca de alguma visibilidade, chefetes da extinta TFP ,  além de um pretenso herdeiro do trono brasileiro, e uma gama imensa de pessoas que estavam ali sem saber exatamente o que estavam a fazer, mas queriam estar.

    As consequências desta Marcha devem ser avaliadas. É risível o comportamento dos petistas que afirmam ter apenas 210 mil pessoas onde a Globo falava que tinha um milhão. Coisa de criança contrariada. Cem mil pessoas já seria muita gente. Mas, se petista entendesse isto, todos os argumentos aqui levantados seriam invalidados. Esta Marcha, nem sequer as próximas, vão levar ao impeachment de Dilma, exceto se a crise econômica agravar-se demais. Precisa foi a formulação do dantesco senador por São Paulo, Aloysio Nunes: “A intenção é fazer a Dilma sangrar”, ou seja, desgasta-la até o último dia do melancólico mandato, mantê-la acuada para que nem pense em por em discussão a regulamentação da mídia, obriga-la a recolocar na pauta a privatização da Caixa Econômica e, quem sabe, do que restou da Petrobrás. O governo do PT, daqui para a frente em ritmo acelerado, continuará adernando à direita e terminará seu ciclo como um PMDB empobrecido. Isto pouco importa. O que importa de verdade é que a deseducação que impôs aos trabalhadores ao longo destes anos cobrará seu custo nas próximas décadas, um período demasiado longo se considerarmos que o adensamento da crise exigirá desta classe respostas contundentes em bem menos tempo.

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