Pedro Jorge de Freitas
Espaço Marx de Maringá
Instituto Lukács - Núcleo Paraná
Espaço Marx de Maringá
A
luz amarela acendeu para o governo do PT. Mas não foi ontem, na massiva, mas pouco
eficaz, manifestação que ganhou as ruas do país. Foi há dois anos, nas
manifestações de junho de 2013. Naquele momento, evidenciava-se que o projeto
político do social conservadorismo começava a dar sinais de estafa e que não
seria mais possível prosseguir preservando a política econômica pautada na
preservação dos interesses do grande capital financeiro ao mesmo tempo em que
lhe dava um verniz, ainda que de bons resultados tanto políticos como sociais,
mais à esquerda com os programas sociais. As manifestações de 2013 eram
legítimas, apontavam um sentimento difuso de insatisfação, que se adensava a
partir do momento em que as demandas sociais não eram atendidas na medida do
exigido e que a este não atendimento somava-se uma crescente descrença nas
chamadas instituições políticas.
O
PT fez de conta que a conversa não era com ele. Antes procurou apontar o dedo
aos manifestantes e desqualifica-los. Sentou-se, por exemplo, sobre a
legitimidade de um programa como o Mais Médicos, não reconhecendo a sua
limitação e a necessidade de se ir muito adiante neste campo, preferindo travar
a luta pequena contra os segmentos médicos mais conservadores que viam no
programa uma ameaça à sua condição profissional. Enquanto o PT se empenhava neste
épico combate com meia dúzia de médiquinhos da Avenida Paulista, e verberava
contra eles os inflados números de atendimento do programa citado, a saúde
pública continuava abandonada. Ao povo que sofria nos corredores do hospitais,
a luta do governo contra os mediquinhos era coisa completamente alheia à sua
vida.
A
saúde é apenas um dos exemplos que se pode dar acerca da forma politicista com
que o PT decidiu governar. O mesmo comportamento pode ser estendido às demais
áreas do serviço público. O politicismo consiste em tomar a esfera política
como a determinante da existência social, de tal maneira que será sempre no
campo da política que todas as contradições se desvelarão. Na prática, o
politicismo é aquela ideia de que a cada problema que apareça o governo deverá
imediatamente responder com um programa paliativo que nunca vai à raiz da
questão. A pulverização dos problemas impõe a pulverização de suas soluções e,
soluções pulverizadas, sabemos, nunca são verdadeiras soluções. Ocorre que, na
realidade, a esfera política é que é determinada pelas contradições sociais de
tal maneira que a não intervenção sobre estas leva sempre ao seu aguçamento e,
ao mesmo tempo, à impossibilidade cada vez mais patente da sua resolução pelos
meios políticos.
A
não resolução das contradições sociais, ou pelo menos o enfrentamento das suas
consequências pelas vias políticas assemelha-se ao enfermo que reza
cotidianamente para recuperar a sua saúde. Como esta não apresenta melhoras
porque exige que se faça uma intervenção sobre as causas da doença, a conclusão
a que chega o pobre ser exaurido pela doença é que lhe faltou fé, razão pela
qual deve, de ora em diante, rezar ainda mais. Assim, os politicistas creem que
o fortalecimento político se dá não no enfrentamento das questões sociais,
arregimentando para o combate as massas beneficiadas por estas intervenções,
mas, ao contrário, que o fortalecimento dá-se pelo conjunto de alianças no
interior das instâncias políticas, das forças que supostamente teriam estas
massas sob seu comando. Desta forma, os grandes contingentes necessários à
promoção de qualquer transformação significativa ficam, de saída, reduzidos à
condição de moeda de troca dos caciques políticos operando-se a sua deseducação
e desmobilização.
Isto
pode funcionar ocasionalmente, para assegurar ao governo a base necessária para
ganhar tempo para preparar-se para a luta que realmente interessa. Mas, como no
caso do PT, a escolha já fora feita e a luta deveria ser travada no interior
das instâncias políticas, o politicista sempre considera-se despreparado para
travar o combate real, até porque, toda vez que pensa em faze-lo, as
contradições sociais já se adiantaram e já se apresentam mais intensas, o que
faz com que se sinta cada vez mais abatido. Como nosso doente do parágrafo
anterior, a solução é mais uma vez rezar, rezar o catecismo dos adversários
políticos e formar com eles novas alianças.
Alianças
políticas, no entanto, custam dinheiro. O parlamento não é exatamente uma
legião angelical. Sua função, ao contrário do que dele se diz, não é ser o lócus
dos grandes debates acerca dos problemas nacionais. Menos ainda é a casa do
povo. Ao contrário, sempre foi, é e será um poder que se organiza contra este
povo. É parte da forma política com que se organiza a sociedade assentada na
exploração capitalista. Ali, tudo e todos se vendem e as honrosas exceções
continuarão a ser precisamente isso, honrosas exceções.
O
PT pareceu não ter-se perturbado com isto. Lula, que dissera ser o parlamento o
local de encontro de trezentos picaretas, “amadureceu” ao ponto de passar a
considerar a “política como a arte do possível”. Mas, de que possível fala o grande chefe¿
Claro, do possível demarcado pelo leito do politicismo, do possível posto pelo
jogo de alianças, do possível posto pela moeda de troca, pela barganha, pela
corrupção.
Que
fique claro, portanto, que não foi o PT que inventou este jogo. O jogo da
corrupção sempre existiu e continuará existindo em qualquer sociedade de
classes. Ele é inerente, não só, mas também ao modo de produção capitalista.
Não existe capitalismo sem corrupção em todas as esferas e, particularmente, na
esfera política. O que o PT fez foi aceitar este jogo, fazer parte dele, nadar
de braçadas no mar de lama. Ou como reconhecem seus militantes mais honestos ou
mais cínicos, se os outros fazem, por que nós não podemos fazer?
O
problema não seria maior se esta agremiação partidária tão parecida com as
demais, com quem convive de forma mais ou menos amistosa, não tivesse se
apresentado ao eleitorado, especialmente nos seus primeiros anos de vida, como
a alternativa de uma transformação socialista da sociedade; se não tivesse se
apresentado como o Partido da classe que todas riquezas produz mas que delas
não se apropria; se não tivesse adotado a bandeira vermelha que sempre
representou a luta dos despossuídos contra a opressão e a exploração; e, em um
patamar mais baixo, se não tivesse se apresentado como paladino da moralidade.
Assim,
no agravar-se das condições de vida, quando o verniz social vai perdendo seu
brilho, o que mais evidencia-se é o lado indefensável da sua prática política.
As massas, sempre relegadas ao plano espúrio das negociações e apoios
políticos, começam a exigir o que lhes é de direito, ou seja, o protagonismo da
vida em sociedade. Já não tendo mais a que santos apelar, tão vasto é o leque
de alianças que a nada levou, a combalida agremiação política acuada - que
interessante! - na solidão do poder,
nada mais pode fazer senão apelar a mais rezas, não a este ou aquele santo em
particular, mas a uma reforma política abstrata que, em um passe de mágica, moralizaria
a política brasileira e varreria seus adversários do espectro político. Firma
esta crença no fim do financiamento privado de campanha, com uma auréola de
santidade como se seus parlamentares nunca tivessem feito largo uso deste
reprovável procedimento. O castelo começa a ruir.
O
flanco aberto pelo qual as hordas direitistas sentem-se fortes para atacar
pouca importância teria se o ataque viesse apenas a por uma pá de cal sobre a
impostura petista. Mas quão iludidos estaríamos se imaginássemos que se
contentariam com isso. O alvo é o PT pelo qual nutrem desprezo não pelos vícios
aqui apontados, mas por suas pontuais virtudes. Mas sua ira estende-se a tudo
que possa, mesmo que longinquamente, lembrar a construção de uma nova
sociedade. Os generosos sonhos de uma sociedade sem classes estão hoje
distantes dos corações e mentes das massas.
Por
outro lado, a desilusão, a insegurança com o futuro, o medo de apostar
novamente em promessas de transformação, a desconfiança nas instituições
políticas acompanhadas pela fé inquebrantável no Estado, especialmente no
Estado que possa moralizar a política por via das armas e criar as condições de
florescimento de uma suposta cidadania, a deseducação e desmobilização postos
pelo pensamento único de que a luta de classes não existe mais, o reforço dos
preconceitos nacionais como catarse para todo padecimento, enfim, todo um corpo
de ideias contraditórias entre si, está jogado ao ar a espera de uma mão
qualquer que o conduza a algum lugar que ele não consegue formular onde é.
Por
isso, foi tragicômica a Marcha dos Idiotas realizada ontem por todo país. Ela
conseguiu reunir as velhas viúvas da ditadura militar, outros que querem uma
intervenção militar constitucional, uma juventude beócia que confunde
privatização com liberdade, uma classe média doentia que se põe a falar sobre
Cuba e Venezuela sem jamais ter lido qualquer coisa a respeito destes países,
gente que confunde o PT com comunismo, Lula com Karl Marx, que pede o fim da
corrupção, mas que irrita-se quando se fala em sonegação ou escândalo HSBC, que
pede o impeachment da Dilma imaginando que isto fará de Aécio o novo
presidente, gente que votou em Collor mas que hoje usa camiseta escrita Dilma
com dois “ll”, fiéis tentando exorcizar o mundo do capeta do comunismo, madames
esbravejando contra o bolsa-família, covardes que veem ali uma chance de
parecerem valentões, oportunistas em busca de alguma visibilidade, chefetes da
extinta TFP , além de um pretenso
herdeiro do trono brasileiro, e uma gama imensa de pessoas que estavam ali sem saber
exatamente o que estavam a fazer, mas queriam estar.
As
consequências desta Marcha devem ser avaliadas. É risível o comportamento dos
petistas que afirmam ter apenas 210 mil pessoas onde a Globo falava que tinha
um milhão. Coisa de criança contrariada. Cem mil pessoas já seria muita gente.
Mas, se petista entendesse isto, todos os argumentos aqui levantados seriam
invalidados. Esta Marcha, nem sequer as próximas, vão levar ao impeachment de
Dilma, exceto se a crise econômica agravar-se demais. Precisa foi a formulação
do dantesco senador por São Paulo, Aloysio Nunes: “A intenção é fazer a Dilma
sangrar”, ou seja, desgasta-la até o último dia do melancólico mandato, mantê-la
acuada para que nem pense em por em discussão a regulamentação da mídia, obriga-la
a recolocar na pauta a privatização da Caixa Econômica e, quem sabe, do que
restou da Petrobrás. O governo do PT, daqui para a frente em ritmo acelerado,
continuará adernando à direita e terminará seu ciclo como um PMDB empobrecido.
Isto pouco importa. O que importa de verdade é que a deseducação que impôs aos
trabalhadores ao longo destes anos cobrará seu custo nas próximas décadas, um
período demasiado longo se considerarmos que o adensamento da crise exigirá
desta classe respostas contundentes em bem menos tempo.
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