A Trajetória do PT e o impeachment de Dilma

domingo, 29 de março de 2015

A TRAJETÓRIA DO PT E O IMPEACHMENT DE DILMA[1]


Artur Bispo dos Santos Neto

Forjado em meio às lutas operárias que marcaram a década de 1980, o PT sempre teve como principal bandeira a disputa por uma posição de proa na apologia do cretinismo parlamentar[2], haja vista que considerava como benemérita a possibilidade de reformar o capital e elevar o capitalismo brasileiro à superação de seu estágio atrófico e hipertardio. Lula, em suas propaladas campanhas eleitorais, não se cansava de afirmar o impossível, inculcando nas massas a possibilidade de reformar o capital e asseverando que o crescimento do capitalismo significava a melhoria das condições de vida para a classe trabalhadora. E contra o capital especulativo apresentava a superioridade do capital produtivo, pois mais fábrica implicaria sempre mais empregos e melhores condições de vida da classe trabalhadora. 

Nos seus anos de formação o PT busca desenvolver uma luta de posição no interior das instituições burguesas. Paulatinamente, ao longo da década de 1980, vai logrando tanto a eleição de parlamentares quanto a conquista pela via eleitoral de determinadas prefeituras (São Paulo, Porto Alegre, Diadema, Fortaleza etc.), demonstrando sua forma singular de administrar o capital. Nessa época, considerava como inéditas e espetaculares as suas experiências de orçamento participativo e as concessões oferecidas a frações escassas das camadas populares, mediante sua inusitada política de cooptação e elevação de suas principais lideranças sociais e sindicais nas tarefas burocráticas e subsidiárias de administração do capital. Isso não quer dizer que inexistia em seu interior tendências que reivindicassem adesão ao pensamento marxista. 

O grupo majoritário do PT, Articulação, desde seus primórdios considerava as palavras de ordem como “Governo dos Trabalhadores” ou “Partido sem patrões”, postulados pela Convergência Socialista e Movimento pela Emancipação do Proletariado (MEP), como expressões radicais e fora da realidade. É que os trabalhadores, no seu entendimento, não reuniam condições para assumir o controle da vida socioeconômica nacional. As tendências de esquerda consideravam a Articulação (Lula, Frei Beto, Jacó Bittar, Olívio Dutra, José Dirceu, Wladimir Pomar, Marco Aurélio Garcia, Djalma Bom, José Cicote, Luiz Gushiken, Devanir Ribeiro, Luiz Eduardo Greenhalgh, Aluísio Mercadante, Francisco Welfort etc.) como tendência de direita. No começo da década de 1990, as tendências que apostavam na defesa de um partido dos trabalhadores contra o partido dos patrões foram afastadas ou expulsas do PT. 

Ao longo da década de 1980, a recusa do grupo majoritário do PT em identificar-se com o marxismo estava amoldada à necessidade de abrigar em seu interior um coletivo extremamente heterogêneo e contraditório, que incluía católicos, ativistas do movimento sindical e popular, intelectuais e setores da classe média. Após figurar como grupo majoritário do PT, a Articulação atuará “como tendência plenamente constituída e suficientemente experimentada nas disputas internas para encontrar outros meios de conquistar seus objetivos sempre que o consenso mínimo em torno deles fosse mais difícil ou exigisse concessões que lhes parecessem exageradas ou desnecessárias” (COELHO, 2005, p. 199). Isso implicava que o PT precisava declarar em alto e bom tom que sua sigla não consistia mais numa organização política pautada pela independência da classe trabalhadora. No entendimento dos dirigentes petistas, a candidatura de Lula à presidência denotava que a classe trabalhadora se punha em movimento não para fazer eclodir o movimento paredista, mas para assegurar a efetivação do projeto democrático e popular. Para a ala majoritária do PT, “a hora do socialismo não chegava com a Constituinte, mas ela proporcionaria espaço para o acúmulo de forças, para lutar pela democratização radical da sociedade, para inscrever direitos como o direito de greve, enfim, para propor ‘medidas que desde já ajudam a realizar a socialização da política’” (COELHO, 2005, p. 84)[3]. 

Após o colapso das experiências pós-capitalistas no Leste Europeu, na Rússia e na China no final da década de 1980 e o avanço do neoliberalismo, o PT tenta adaptar-se ao quadro internacional contrarrevolucionário. Propugna a possibilidade de reformar o capital; nisso sua história se inscreve de maneira similar tanto aos partidos social-democratas quanto aos partidos socialistas e comunistas europeus. As concessões à burguesia se configuram na delimitação do “Projeto Democrático e Popular”, definido no 5º ENPT (1887), em que se acentua a “possibilidade de acordos pontuais com setores da burguesia, [...], era a senha para negociar com partidos situados fora do campo ‘democrático popular’” (COELHO, 2005, p. 86). 

Para enfrentar a ofensiva neoliberal, Aluísio Mercadante defende como fundamental a “constituição de um amplo mercado de consumo de massas, medidas de radicalização da democracia (controle social do Estado e do mercado), planos para garantir o crescimento econômico com estabilidade, reforma do Estado”. Nessa perspectiva impunham-se as reformas previdenciária e tributária, o aprimoramento das câmaras setoriais, as privatizações e a reforma do Estado (COELHO, 2005, p. 234). E quando em 1994 a empreiteira Odebrecht, acusada de participar do esquema de fraudes no Orçamento federal, promove doações à campanha de José Dirceu ao governo paulista, Mercadante justifica: “Receber recursos de empresas, com transparência, fornecendo bônus e declarando, nada tem de imoral ou antiético [...] O que houve foi um erro político por receber da Odebrecht, uma empreiteira que acusamos na CPI do Orçamento de práticas ilícitas” (apud COELHO, 2005, p. 235). Eis o inusitado prólogo do movimento que culminará nas denúncias que pautam o valerioduto ou “mensalão” e a Operação Lava Jato. Em 1994, nota-se a inserção dos elementos que vão delinear a práxis petista nos anos posteriores. Escreve Coelho (2005, p. 235-236): “Conquistar o apoio, financeiro e político, de grupos empresariais era um procedimento inteiramente coerente com os objetivos políticos da Articulação e com os meios para alcançá-los, que exigiam arcar com os elevados custos de garantir competitividade nas disputas eleitorais”. 

A partir de 1994, tornou-se expressiva a defesa do capitalismo como “face humana e social”. Dessa maneira, dissolve-se a distinção entre os valores burgueses e os valores revolucionários e constata-se uma unidade entre os projetos políticos centrados na busca de direitos no interior do sistema do capital e aqueles fundamentados na luta de classes e na centralidade do trabalho. Ao invés da contraposição de classe, agora se galvaniza a necessidade da conciliação de classe e de asseguramento dos interesses da burguesia. Escreve Coelho (2005, p. 240): “A burguesia, antes apontada como inimiga de classe, sócia do imperialismo e beneficiária do subdesenvolvimento, agora era vista como aliada estratégica para desenvolver o país”. E não se tratava de uma simples estratégia programática, mas da própria composição orgânica do PT, pois sem o apoio do capital o PT jamais poderia chegar à Presidência da República. No 10º Encontro do partido (1995), Lula insere os empresários na legenda do PT, nos seguintes termos: 

Criamos o PT para que o povo brasileiro tenha um canal político, uma legenda que represente os interesses da maioria, uma bandeira em torno da qual se mobilizam as donas de casa e os sem-terra, os operários e desempregados, negros e mulheres, estudantes e intelectuais, produtores culturais e empresários interessados na modernização do Brasil, compatível com a redução das desigualdades sociais (apud COELHO, 2005, p. 241). 

Nota-se a substituição da luta de classes pela conciliação com a burguesia e acomodação da classe operária. Na verdade, tratava-se apenas da incorporação escrita de uma prática recorrente no interior do partido; era somente a constatação do fato. O PT nunca tinha intensificado uma forma de oposição que não fosse a oposição política na perspectiva de obter benefícios eleitorais. O PT aposta na possibilidade de organização do capitalismo; para isso entende que é preciso operar a redistribuição de renda e a “ampliação da participação popular na definição de políticas públicas, cujo motor principal seria a expansão do mercado interno e a alavancagem de um novo ciclo de desenvolvimento” (COELHO, 2005, p. 514). A conciliação de classe é o leitmotiv de suas políticas compensatórias, que não passam de imagens pálidas das políticas distributivas encetadas na época do denominado “Estado de Bem-Estar Social”. O PT simplesmente desconsidera o cenário internacional, pois a colaboração de classe é insuficiente para garantir a retomada do desenvolvimento econômico do país, a expansão do mercado interno e a distribuição de renda. Segundo Coelho, o enfrentamento do problema do projeto desenvolvimentista do PT “dependeria de uma redução substantiva no volume de saque imperialista, cujo vetor importante é, desde os anos 80, a relação de crônica dependência com o capital rentista. Após recuar de todas as perspectivas de luta anti-imperialista, a esquerda do capital encontra-se desprovida de meios para lidar com este problema” (COELHO, 2005, p. 515). No fundo, o projeto democrático e popular do PT não passava de uma estratégia para demarcar posição perante a direita e afirmar-se como alternativa aos setores de esquerda e aos movimentos sociais e sindicais. 

A impossibilidade de implementar a imagem mirabolante do Welfare State conduz o PT, da mesma forma que a social-democracia (PSDB), ao campo do neoliberalismo. O PT tenta conciliar o discurso sedutor da necessidade de crescimento econômico com equidade social a partir da aplicação de medidas econômicas neoliberais. No entanto, ele assume somente a primeira parte; a segunda, esconde delas. A crise do Governo Dilma Rousseff é expressão do dilema entre duas propostas aparentemente contraditórias, mas que servem aos mesmos objetivos: ao processo de reprodução do capital e ao aprofundamento do processo de expropriação da força de trabalho. 

Para a esquerda do capital é fundamental manter as massas desorganizadas ou sob a sua tutela, pois caso perca o controle das massas, essa esquerda perde seu poder político para representar os interesses do capital. Escreve Coelho (2005, p. 517): 

Se as medidas de contenção falharem diante de um ascenso reivindicativo que ela não possa controlar ou dirigir, a esquerda do capital se arrisca a perder tudo: os postos de direção nos movimentos da classe trabalhadora podem ser conquistados por forças comprometidas com o movimento que deseja brecar, e seu poder de barganha junto aos dominantes pode desaparecer junto com o seu papel de amortecedora dos conflitos. 

A condição ideal da esquerda do capital é que exista uma polarização entre esquerda e direita, em que ela seja sempre o polo aglutinador da esquerda. No entanto, observa Coelho (2005, p. 517), “mesmo nesta situação hipotética, porém ela ainda teria de conviver com o risco onipresente de uma explosão reformista e desenvolvimentista e a extrema dificuldade para fazer reformas e garantir o desenvolvimento”. 

É possível afirmar que nos três primeiros mandatos, a esquerda do capital (Lula e Dilma) foi bem-sucedida nesse empreendimento e que transitou com maestria na conciliação entre o discurso “desenvolvimentista” e o projeto neoliberal. Observa-se que o PT conseguiu renovar as políticas neoliberais através do discurso “desenvolvimentista” e da política de conciliação de classe, logrando reciclar o neoliberalismo e os ataques aos direitos dos trabalhadores. 

A capacidade de operar no terreno da conciliação de classe faz do PT uma rubrica distinta da direita. Os governos petistas sabem como manipular as contradições e fazer desaparecer, num base de mágica, a diferença entre as classes sociais, mediante suas políticas de cotas para negros, índios, mulheres, homossexuais etc. E enquanto seu antípoda ri da situação deplorável dos miseráveis e os entrega à sua própria sorte, os governos petistas são capazes de derramar suas lágrimas carpideiras em nome dos que sofrem danos, pronunciando discursos fúnebres sobre vítimas que eles mesmos ajudaram a promover. Assim, enquanto a ultradireita recusa os programas assistenciais e acusa os miseráveis de se aproveitarem da própria miséria, o PT elege a defesa dos miseráveis como sua bandeira de justiça e equidade social. E, indubitavelmente, esse segmento garantiu a reeleição de Dilma no segundo turno. No entanto, as suas medidas compensatórias e reparadoras não conseguem nem mesmo arranhar a superfície do sistema do capital, quanto mais promover mudanças substanciais. Assim, enquanto o PSDB e a ultradireita (Bolsonaro) espalha seu sorriso mefistofélico perante o crescimento da pobreza, desdenhando da sorte dos miseráveis, o PT verte suas lágrimas de crocodilo por esses mesmos miseráveis.

A sua sagacidade permite que num instante chore sorrateiramente pelos vitimados de uma barragem ou pelas famílias que insistem em punir os atos desumanos praticados pelos militares; no outro, o PT pode sorrir radiantemente com os capitalistas quando da inauguração de um novo banco ou dum aeroporto ou rodovia construída com verba pública, para em seguida ser privatizada. Assim, ao invés de romper o processo de privatização, o governo Lula manteve a política de privatizações de FHC, privatizando (mediante sistema de vendas ou concessões) 2,6 mil km de rodovias federais (2007), a Ferrovia Norte-Sul, os bancos do Ceará e Maranhão, as hidrelétricas Santo Antônio, Jirau, as linhas de transmissão Porto Velho (RO) e Araraquara (SP), alguns campos da bacia de petróleo do pré-sal e parte da Petrobras. Dilma, por sua vez, terceirizou os Correios e privatizou (mediante sistema de concessões) os aeroportos de São Gonçalo do Amarante (RN), Guarulhos (SP), Cumbica (SP), Viracopos (SP), Juscelino Kubitschek (Brasília), Galeão (RJ), Confins (MG), os hospitais universitários, duas rodovias e o Campo de Libra (Bacia de Santos) etc. 

O segundo mandato de Dilma Rousseff começa com o anúncio do processo de privatização da Caixa Econômica Federal. A listagem das empresas privatizadas atesta como a esquerda do capital fala uma coisa e faz outra, como ela age em plena consonância com a direita do capital (PSDB e consortes). Cumpre observar que metade das empresas contempladas nos dez leilões destinados às concessões de rodovias e aeroportos, entre 2012 e 2013, foi ganha pelas construtoras envolvidas na Operação Lava Jato (Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, OAS, UTC e Odebrecht). Todas elas têm um amplo histórico de corrupção e suborno, não há como negar que estão envolvidas até a medula no processo de formação de caixa dois para alimentar as campanhas de candidatos da esquerda e da direita do capital. Paralelo pode ser encontrado na história das instituições financeiras, como revelaram as “denúncias do mensalão”. Tais denúncias atestam o envolvimento de Dilma e Lula, e denotam que eles deveriam não apenas ser afastados como irem para a cadeia, por formação de quadrilha e roubo ao erário. 

Essa práxis reiterativa serve para explicar por que em nenhum instante a esquerda do capital salientou a possibilidade de rever o processo de privatização orquestrado pelos governos FHC e Collor, pois ela mesma sempre defendeu programaticamente a privatização; no entanto, procurou esconder isso das massas. Da mesma maneira, em nenhum momento a esquerda do capital imaginou a possibilidade de auditar a dívida pública, pois a sua palavra de ordem é efetuar cortes no orçamento público, desconsiderando acordos estabelecidos. Enquanto o governo federal gasta R$ 169 bilhões com servidores ativos e aposentados, 25 bilhões para o Programa Bolsa Família, ele destina quase R$ 890 bilhões para o pagamento do serviço da dívida pública. Lula e Dilma destinaram, entre 2003 e 2014, mais de 8,8 trilhões para o pagamento da dívida pública. Enquanto destina 7,7% do Orçamento da União para as áreas de educação e saúde, o referido governo destina 42% para os banqueiros, sem contar as distintas políticas de renúncia fiscal e subsídio aos banqueiros e empresários. (AUDITÓRIA CIDADÃ, 1014; MONITOR MERCANTIL, 2014). 

Os três mandatos do PT na Presidência da República revelam como a forma petista de governar destaca-se pela sua capacidade de constituir uma teia de relações que envolvem e prendem as organizações sociais ao processo de reprodução do capital. Entre esses tentáculos destacam-se as concessões do capital aos movimentos sociais do campo e da cidade, mediante a liberação de verbas e o financiamento de inúmeras atividades. Entre as ações realizadas pelos movimentos sociais em parceria com o governo federal, o diretor do Instituto Lula e ex-ministro da Casa Civil, Luís Dulci, menciona as grandes marchas realizadas para Brasília, como a “Marcha das Margaridas” e os “Gritos da Terra”, e ainda, as inúmeras atividades estaduais realizadas pelo MST e consortes, como os assentamentos e as “Paradas Gay”. Para Luís Dulci, o governo Lula financiou a realização de 63 conferências nacionais, que mobilizaram mais de 4,5 milhões de pessoas (PASSA PALAVRA, 2015, p. 3). O aparato do Estado foi posto em curso a serviço dos interesses dos “trabalhadores”, quando na verdade tratava-se de constituir uma teia de influência que prendia as organizações sociais aos interesses do governo e à necessidade de garantir a governabilidade do governo Lula. É contra o fantasma da ameaça de crescimento da extrema-direita que se coloca a necessidade das organizações populares e dos movimentos sociais apoiarem o governo do PT. É nesse contexto que ganha expressividade o discurso do PT como o mal menor tanto nas eleições de 2014, quanto perante a possibilidade de crescimento da campanha pelo impeachment de Dilma em 2015. 

O problema é que por trás do discurso do Instituto Lula e dos apologistas do cretinismo parlamentar subsiste o próprio legado histórico construído pela legenda petista ao longo dos seus 35 anos de existência. Sobre esse legado se encontra farta documentação e material jornalístico reportagem de como passou mais de duas décadas a adular a burguesia nacional e internacional e como, para garantir a preservação do status quo, teve de dormir com aqueles que outrora negava. De forma que passou a considerar Fernando Collor, Maluf, José Sarney e Renan Calheiros como amantes belos e singelos. Assim, a pureza de sua “bela alma” juvenil foi completamente contaminada e maculada pelas práticas orgiásticas e dionisíacas das atividades parlamentares. Como sua alma pertence completamente ao capital, cada denúncia proferida de sangria dos cofres públicos serve somente para lançar seu sorriso sarcástico, pois aprendeu a desdenhar de todas as denúncias (valerioduto e Operação Lava-Jato)[4]. O PT se acha submerso no pântano lamacento da pilhagem da riqueza produzida pela classe operária, porquanto inscreveu sua história com a mesma tinta das classes que aparentemente dizia combater. 

A obra de arte do PT está em plena sintonia com os tempos hodiernos, em que nada de grande pode ser realizado sem o apoio do capital. A sua alma não lhe pertence, mas pertence ao capital, que o encheu de louros e fortuna. Assim, plasmado pela corrupção pode afirmar num tom feérico e fáustico: “esta é uma época em que já não é possível realizar uma obra de modo piedoso, correto, com recursos decentes. A Arte deixou de ser exequível sem a ajuda do Diabo e sem fogos infernais sob a panela...” (MANN, 1994, p. 672). Apesar de o estranhamento em relação à classe operária ser completo, o PT insiste em manter seu pé esquerdo no interior das organizações operárias e dos movimentos sociais; mas o seu pé revela muito mais asco e sujeira, denotando existir “algo de podre no reino da Dinamarca”. 

O segundo mandato de Dilma demonstra os limites para persistir na conciliação do discurso “desenvolvimentista” com a prática neoliberal. A crise econômica internacional impõe a redução das taxas de crescimento do país e suscita dificuldades para manter as políticas compensatórias ou de redistribuição de renda. Isso implica a impossibilidade de oferecer uma face humana para o capital. Com isso cai o véu da separação entre esquerda e direita do capital, pois o governo Dilma faz tudo que o PSDB faria. A inexistência de desenvolvimento econômico implica a débâcle do programa petista de governar, pois nenhuma concessão pode ser feita à classe trabalhadora e as políticas compensatórias reparadoras terão de ser reduzidas para ampliar as taxas de acumulação do capital. 


Acerca do impeachment de Dilma


A campanha orquestrada de impeachment da presidente é indubitavelmente organizada pela direita e visa aprofundar os ataques aos interesses da classe trabalhadora. A campanha é produto dos reflexos da crise econômica internacional no interior da economia brasileira, pois é notório o processo de desaquecimento da economia e o aguçamento da crise do setor industrial (REVISTA ECONOMIA BRASILEIRA, 2014; SISTEMA FIEGRS, 2014; VIVAS AGÜERO, 2014). Apesar do incentivo fiscal do governo e do rebaixamento do valor da força de trabalho, a indústria brasileira não tem nem mesmo conseguido preservar sua posição no mercado interno, ante a avalanche dos produtos asiáticos. 

Para assegurar suas posições econômicas, o governo precisa cortar gastos que afetam tanto o direito dos trabalhadores quanto os benefícios fiscais concedidos aos empresários (MP da desoneração fiscal), preservando os interesses dos grandes banqueiros. A política de austeridade do novo governo implica o corte imediato de 30% das verbas destinadas à educação e impõe a necessidade de nova reforma da Previdência (fórmula 85 anos para as mulheres x 95 anos para os homens) e a votação do PL 4.330/04, que amplia o processo de terceirização e flexibilização das relações de trabalho. 

A crise tem afetado de forma particular também a classe média; esta imagina que o impeachment solucionará seus problemas imediatos, quando na verdade as propostas da direita do capital (PSDB e consortes) intentam aprofundar os ataques aos trabalhadores assalariados. Assim, a implementação de um governo que reduza as políticas compensatórias não resultará na recuperação do poder aquisitivo da classe média ou da pequena burguesia, pois somente pretende retirar mais ainda dos miseráveis para entregar aos banqueiros. A classe média está impossibilitada de enxergar qualquer saída que não seja aprofundar ainda mais o estado em que se encontra. Assim, ela serve aos interesses que, em última instância, não são os seus, mas do grande capital. Impossibilitada de apostar num processo revolucionário, ela serve aos interesses do capital e apressa os passos para a sua proletarização. 

As organizações de direita possuem um espaço significativo no interior das classes intermediárias; não é à toa que se irradiam e crescem no interior da sociedade valores reacionários e conservadores, que mimetizam os preceitos axiológicos que animaram a “Marcha da Família com Deus e a Propriedade Privada”. Com isso, os bucaneiros do capital aparecem atacando os direitos das mulheres, fazendo a apologia do regime militar, defendendo a sacrossanta propriedade privada, bem como a família e a religião. Entre eles se destacam Bolsonaro, Feliciano, Lobão, Eduardo Cunha etc. 

Embora não se possa desconsiderar a possibilidade de a campanha do impeachment ganhar volume e possibilidade de efetivação, pelo forte papel desempenhado pelos meios de comunicação de massa, isso de maneira alguma altera a condição do governo Dilma. O impeachment não suscita a luta de classe, porque o projeto do PT e do governo Dilma Rousseff representa a subordinação do trabalho ao capital, e não o contrário. Por isso os acenos verbais e retóricos de Lula para a classe trabalhadora não passam de uma farsa que pretende tão somente garantir a governabilidade. Os acenos visam somente fortalecer o governo Dilma, para que este possa recuperar a popularidade perdida. Desse modo, o movimento contrário ao impeachment não pretende despertar as massas de seu sono de classe, mas simplesmente manipular a consciência das massas no sentido de continuar alimentando as ilusões com o PT e o governo instituído. No fundo, o movimento anti-impeachment não tem como intuito despertar as massas e impulsioná-las para a luta, mas servir como freio das lutas realmente classistas e que pretendam radicalizar suas posições em defesa do trabalho. Não é à toa que a campanha anti-impeachment é organizada pela burocracia sindical e pelo aparato das organizações sociais alimentadas e agraciadas com recursos governamentais. 

O discurso da necessidade de interceptar o mal maior representado pela direita e que exige a constituição de uma frente nacional ampla e irrestrita não passa de uma estratégia para ludibriar as massas. Este discurso foi bem-sucedido no segundo turno das eleições presidenciais e serviu para reconduzir Dilma Rousseff à presidência, uma vez que se difundiu a ameaça que representava o PSDB no processo de cerceamento dos direitos trabalhistas. Foi amplamente propagada a possibilidade de aguçamento da violência no campo com o cerceamento do processo de suspensão das inúmeras linhas de crédito abertas para os agricultores sem terra assentados pelo Governo Federal. Além disso, a possibilidade de cortes de financiamento da Caixa Econômica para subsidiar programas como Minha Casa Minha Vida para pessoas dos movimentos sem teto, bem como os cortes nos programas assistenciais, como Bolsa Família etc. 

O discurso do PT como o mal menor é uma falácia e busca assegurar a dominação do capital sobre o trabalho. Ao invés de contrapor-se à possibilidade de retirada dos direitos dos trabalhadores, a agenda econômica de Dilma passa claramente pelo ataque direto ao trabalho, pois essa é a única maneira de assegurar os interesses do capital. Somente por meio da ampliação do processo de expropriação de mais-trabalho é possível ao capital garantir a sua sobrevivência. O capital não pode assegurar sua reprodução de outra maneira, porque acumulação de riqueza é acumulação de mais-valia. A tarefa do Estado é garantir esse processo de expropriação. As primeiras medidas de Dilma visam manter o processo de expansão e acumulação do capital; para isso os direitos dos trabalhadores serão atacados com a aprovação do PL 4.330/04 e da lei que regulamenta o direito de greve do funcionalismo público (ambos em tramitação). 

Por isso que o PT precisará tanto de Joaquim Levy e Armando Monteiro quanto da Miss Motosserra Kátia Abreu, pois a natureza do desenvolvimento do capital brasileiro sempre esteve assentada na produção agrícola para a exportação como elemento fundamental para produzir os excedentes necessários à compra dos produtos manufaturados. A superexploração da força de trabalho sempre foi a peculiaridade do capitalismo dos trópicos; por isso a classe operária não deve se escandalizar se uma vez ou outra se precisar usar de alguns tratores para passar por cima de suas miseráveis moradias ou se uma vez ou outra se precisar passar a motosserra em alguns corpos humanos, como passam anualmente em milhões de árvores; afinal, o exercício do governo exige o sacrifício de algumas vidas. Uma vez ou outra será preciso fazer alguns despejos e massacres para assegurar a existência da sacrossanta propriedade privada; para isso se necessita investir ainda mais nos aparatos de segurança. Não se pode esquecer que foi o governo Lula que criou, em 2004, a Força Nacional, uma tropa nacional de elite preparada para coibir os “distúrbios civis” e ajudar na política de extermínio dos jovens desempregados. No entanto, nada disso deve escandalizar as almas puras que acreditam no PT, pois é preciso ser mais duro com aqueles que querem desestabilizar o sistema e impedir o cumprimento da agenda positiva (Proifes, Reuni, Ebserh, PL 4.330/04, Lei Anti-Greve, Privatização da Caixa Econômica Federal, Contrarreforma da Previdência, Privatização da Petrobrás etc.) dos petistas.

Essas medidas serão reiteradas sempre que a vanguarda operária (estudantil etc.) tentar aguçar a luta de classes, porquanto a recorrência ao aparato policial é necessária para demonstrar os estreitos limites da liberdade destinada à classe trabalhadora. A criminalização dos movimentos sociais será sempre recorrente para denotar que o périplo trilhado pela classe operária e pelos movimentos sociais está plenamente prefigurado pelos representantes do capital. Os ministros chefes da Casa Civil, do Incra, da Funai e dos programas sociais existem para mostrar o caminho que cada um dos movimentos sociais deve trilhar. Para isso será sempre possível destinar alguma soma dos recursos governamentais. Tanto a CUT quanto o MST conhecem bem esse caminho, e devem servir de exemplo aos demais movimentos sociais. Daí por que essas organizações devem ocupar papel de proa na luta contra o impeachment de Dilma. 

Os revolucionários e militantes anticapitalistas devem contrapor-se às bandeiras assentadas no impeachment, sejam elas favoráveis ou contrárias, porque não passam de disputas em torno do cretinismo parlamentar. Trata-se de uma disputa de direção do controle da classe trabalhadora. A questão que se coloca é quem reúne as melhores condições de assegurar a dominação do capital sobre o trabalho, ou seja, quem pode desferir os ataques mais certeiros contra a classe operária. A direita do capital aposta mais nas medidas repressivas que nas ações persuasivas; a esquerda do capital aposta mais nas ações persuasivas. Mas coerção e persuasão fazem parte do léxico de ambas. É a possibilidade de convivência amigável com os aparatos repressivos do Estado que conduz a esquerda não petista à convivência harmoniosa com a esquerda petista, preferindo Dilma a Aécio. Em nome da preservação do estado de direito burguês e das liberdades afirmadas pela burguesia, a esquerda não petista prefere a esquerda do capital. Com isso se abandonam a crítica revolucionária e a práxis revolucionária, e se sucumbe ao reformismo. O PT é o partido da reforma do capital e o partido da ordem. A única coisa que ele pode fazer é se apresentar como o mal menor; ele deve sempre explorar a possibilidade do pior, por isso deve chegar para os trabalhadores e propor: Vocês preferem o estado de direito ou a ditadura militar? Vocês preferem a liberdade burguesa ou a ditadura burguesa expressa no fascismo? Ele nunca vai dizer para a classe operária que ela tem a opção de escolher o capital (fascismo ou democracia burguesa) ou o socialismo. Para o PT não existe alternativa ao capital, pois o capitalismo é a melhor de todas as sociedades possíveis. Quer se iludir quem imagina que o PT pode passar disso. 

A campanha pró-impeachment pode servir para afastar a possibilidade de continuidade do PT no governo no próximo mandato e expulsar o espectro Lula em 2018. O tamanho das denúncias envolvendo Dilma depende do tamanho das manifestações populares, se crescerem as manifestações pró-impeachment crescerão também as provas que atestam o caráter corrupto e corruptor do atual governo. Por sua vez, a saída de Dilma do governo não deve implicar a entrega da presidência para o PMDB de Michel Temer, de Cunha e Renan Calheiros; estes também estão envolvidos na Operação Lava Jato, segundo denúncias do ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, da mesma maneira como está envolvida frações menores da cúpula do PSDB. Indubitavelmente, todos os presidentes (Sarney, Collor, FHC, Lula e Dilma) do Brasil deveriam estar atrás das grades. A pilhagem e o saque do erário são a palavra de ordem de todos eles (governos civis e militares). 

É preciso salientar que a saída do governo Dilma, se acontecesse, não resultaria do fato de este ter se colocado do lado dos trabalhadores; por isso os trabalhadores não deverão sair em sua defesa, mesmo que a CUT e o MST, enquanto correias de transmissão do PT, tentem apresentar um quadro classista para o impeachment. Todas as posições do governo Dilma claramente se colocam do lado do capital e contra o trabalho. Por isso o debate sobre o impeachment não interessa aos revolucionários, porque não representa a possibilidade de mudanças substanciais. O que interessa aos revolucionários é um processo revolucionário e uma luta que conduza à derrubada completa do poder instituído para controlar o trabalho. 

O governo do PT é tão corrupto e tão destrutivo aos interesses da classe trabalhadora quanto os governos do PSDB e do PMDB. Um governo corrupto e inimigo dos trabalhadores não merece nenhum apoio dos revolucionários e dos setores anticapitalistas. Os revolucionários devem afirmar categoricamente: Fora todos, e prisão para todos os representantes do capital! Porque vivem do roubo e da pilhagem do trabalho alheio. Abaixo o parlamento burguês e as instituições burguesas. Somos pela revolução como única forma de eliminação do poder corrupto da burguesia. Enquanto existir burguesia e enquanto existir capital, haverá a corrupção parlamentar e a exploração do trabalho. Chega de medidas paliativas e de mudanças superficiais. Devemos lutar por mudanças estruturais. Por isso somos por uma revolução social e política que conduza a uma forma de produção organizada e controlada pelos trabalhadores associados, livres e universais. 

É preciso salientar que a crise de gestão do Estado burguês é expressão da crise econômica que perpassa a economia nacional e internacional. O problema não será solucionado nos marcos da esfera parlamentar e da preservação da institucionalidade burguesa. A crise política é expressão da crise estrutural do sistema do capital e não poderá ser solucionada nos limites do sistema do capital. Nesse contexto é preciso desencadear uma ofensiva socialista, pois somente assim será possível operar mudanças substanciais e interromper definitiva com todas as políticas de austeridade implementadas contra o trabalho e contra todo o processo de exploração da força de trabalho e de apropriação privada da riqueza produzida pela humanidade. 

Notas:

[1] Elaborado em 09 de março de 2015 e discutido pelo núcleo do IL (Instituto Lukács) Maceió em 17 de março de 2015, o texto sofreu pequenas modificações para adequar-se às sugestões do coletivo. 

[2] O cretinismo parlamentar é uma doença que se apodera dos indivíduos, e estes acabam desconsiderando as determinações objetivas do mundo subjetivo; desse modo, a política aparece como fundante e não como fundada. Explica Marx (1997, p. 95): “Viram-se assim reduzidos a agir estritamente dentro dos limites parlamentares. E viram-se assim reduzidos a agir estritamente dentro dos limites parlamentares. E foi necessário passar por aquela doença peculiar que desde 1848 vem grassando em todo o continente, o cretinismo parlamentar; que mantém os elementos contagiados firmemente presos a um mundo imaginário, privando-os de todo senso comum, de qualquer recordação de toda compreensão do grosseiro mundo exterior – foi necessário passar por esse cretinismo parlamentar para que aqueles que haviam, com suas próprias mãos, destruído todas as condições do poder parlamentar, e que tinham necessariamente que destruí-las em sua luta com as outras classes, considerassem ainda como vitórias as suas vitórias parlamentares e acreditassem ferir o presidente quando investiam contra seus ministros”. 

[3] Para o PT, “a construção de uma sociedade socialista, de um ‘novo modo de vida, implica relações novas e diferentes de produção e, portanto, diferentes e novas relações sociais e políticas’. A construção do socialismo passaria pela combinação entre ações mobilizadoras populares, vitórias eleitorais, ações institucionais e governamentais, grandes campanhas cívicas, batalhas culturais e ideológicas, e permanente e forte pressão popular” (COELHO, 2005, p. 228). A débâcle das experiências pós-capitalistas, o avanço das políticas neoliberais e a derrota nas eleições de 1994 conduziram o grupo majoritário do PT ao abandono completo da luta pelo socialismo, pois: “Não tem mais sentido a afirmação pura e simples do socialismo: é preciso dar novo conteúdo ao nosso projeto, atualizando às novas relações sociais, política, econômicas e culturais; construindo novos referenciais e novos modelos de análise, capazes de dar conta da complexidade que as relações econômicas e sociais hoje envolvem; é preciso recriar novas formas de organização e relações sociais e econômicas” (COELHO, 2005, p. 231-232). Para Luiz Gushiken, tornava-se imperativo fazer uma reformulação da crítica ao capitalismo, ultrapassando o velho maniqueísmo entre socialismo e capitalismo, privatização e estatização, pois “é óbvio que deve existir a propriedade privada, mas também é óbvio que ao Estado cabe exercer o controle e a regulamentação [...]. O mercado deve existir, mas suas leis cegas e descontroladas não podem impor as necessidades dos indivíduos e nações” (apud COELHO, 2005, p. 233)

[4] A Polícia Federal indicia, em março de 2014, 46 investigados da Operação Lava Jato. Entre eles o doleiro Alberto Youssef e o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa. Além destes, estariam envolvidos 54 deputados federais, 12 senadores (entre eles, Renan do PMDB, Fernando Collor do PTB, Gleisi Hoffmann do PT, João Pizzolatti do PP etc.), o vice-governador da Bahia, um governador,etc. Além de políticos, também estariam envolvidos no esquema empresas como OAS, Camargo Corrêa, Queiroz Galvão, Engevix Engenharia, Mendes Junior, Iesa, UTC-Constran, Arxo etc. Por sua vez, as empresas envolvidas na Lava-Jato afirmam haver doado cerca de R$ 109 milhões às candidaturas de Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB). Além de corrupção ativa, pesa sobre os suspeitos os crimes de lavagem de dinheiro, fraude a licitações etc. As denúncias de corrupção se estendem ao processo de compra da refinaria de Pasadena (EUA) e a desvio de recursos na construção da refinaria de Abreu e Lima (PE). As inúmeras denúncias de lavagem de dinheiro, fraude a licitações e corrupção conduziram ao afastamento de toda a diretoria da empresa, incluindo Graça Foster (Presidente da estatal), no início de fevereiro de 2015. No entanto, a própria presidenta integra o grupo de responsáveis pelos desmandos da empresa, haja vista que ela figurou tanto como membro do Conselho de Administração quanto na administração da Petrobrás. O suborno, a corrupção e a lavagem de dinheiro envolvem somas astronômicas; são milhões e milhões de reais que, somados, chegam a bilhões de reais. Somente na compra de Pasadena, o suborno chega a 1,5 bilhão de dólares. Alberto Youssef refere 15 contratos em que as empreiteiras vencedoras dos contratos de licitações com a Petrobras pagam propinas para os representantes das estatais. As denúncias de corrupção contra a esquerda do capital quase conduzem à débâcle do governo Lula. Da mesma forma que as denúncias do valerioduto foram verdadeiras, as denúncias da Lava Jato também são procedentes. Na primeira, ficou claro como o Ministro da Casa Civil, José Dirceu, operava na compra de votos para aprovar as políticas governamentais e ampliar a base aliada no Congresso com as sobras fraudulentas da campanha do presidenciável petista de 2002. A história desvela as habilidades petistas no submundo da corrupção, do suborno e da fraude. Entre os envolvidos no mensalão se destacam: Vicentinho, Benedita da Silva, José Dirceu, Emídio de Souza, José Mentor, Delúbio Soares, Marcos Valério, Freud Godoy (segurança pessoal de Lula), Daniel Dantas (banqueiro), Banco Rural, Visanet etc.



Referências bibliográficas



COELHO, Eurelino. Uma esquerda para o capital: crise do marxismo e mudanças nos projetos políticos dos grupos dirigentes do PT (1979-1998). Tese de Doutorado. Universidade Federal Fluminense, 2005. 

MANN, Thomas. Doutor Fausto. Trad. Herbert Caro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994. 

MARX, Karl. O 18 brumário e cartas a Kugelmann. Trad. Leandro Konder. São Paulo: Paz e Terra, 1997. 

MONITOR MERCANTIL. FMI alerta para risco da correção de débitos com juros acima de 10%. Endereço eletrônico: http://www.monitormercantil.com.br/index.php?pagina=Noticias&Noticia=163189

PASSA PALAVRA. A saída de Gilberto Carvalho e a “Frente de Esquerda” do PT. O que os anticapitalistas têm a ver com isso? Endereço eletrônico: http://passapalavra.info/?s=gilberto+carvalho&x=12&y=7. Acessado em 16 de fevereiro de 2015. 

REVISTA ECONOMIA BRASILEIRA. Edição especial de informe conjuntural. Ano 30, N. 4, Dezembro de 2014.

SISTEMA FIEGRS. Balanço 2014 e perspectivas da economia 2015. Unidade de Estudos Econômicos. Dezembro de 2014. http://www.fiergs.org.br/sites/default/files/Balan%C3%A7o_2014_Completo.pdf

VIVAS AGÜERO, Pedro Hubertus. Prognóstico econômico do Brasil – 2014-2015. Observatorio de la Economía Latinoamericana, Número 201, 2014. Endereço eletrônico: http://www.eumed.net/cursecon/ecolat/br/14/prognostico-economico.html




A Marcha Grande

domingo, 29 de março de 2015

Pedro Jorge de Freitas
Espaço Marx de Maringá
 Instituto Lukács - Núcleo Paraná




     A luz amarela acendeu para o governo do PT. Mas não foi ontem, na massiva, mas pouco eficaz, manifestação que ganhou as ruas do país. Foi há dois anos, nas manifestações de junho de 2013. Naquele momento, evidenciava-se que o projeto político do social conservadorismo começava a dar sinais de estafa e que não seria mais possível prosseguir preservando a política econômica pautada na preservação dos interesses do grande capital financeiro ao mesmo tempo em que lhe dava um verniz, ainda que de bons resultados tanto políticos como sociais, mais à esquerda com os programas sociais. As manifestações de 2013 eram legítimas, apontavam um sentimento difuso de insatisfação, que se adensava a partir do momento em que as demandas sociais não eram atendidas na medida do exigido e que a este não atendimento somava-se uma crescente descrença nas chamadas instituições políticas.

   O PT fez de conta que a conversa não era com ele. Antes procurou apontar o dedo aos manifestantes e desqualifica-los. Sentou-se, por exemplo, sobre a legitimidade de um programa como o Mais Médicos, não reconhecendo a sua limitação e a necessidade de se ir muito adiante neste campo, preferindo travar a luta pequena contra os segmentos médicos mais conservadores que viam no programa uma ameaça à sua condição profissional. Enquanto o PT se empenhava neste épico combate com meia dúzia de médiquinhos da Avenida Paulista, e verberava contra eles os inflados números de atendimento do programa citado, a saúde pública continuava abandonada. Ao povo que sofria nos corredores do hospitais, a luta do governo contra os mediquinhos era coisa completamente alheia à sua vida.

    A saúde é apenas um dos exemplos que se pode dar acerca da forma politicista com que o PT decidiu governar. O mesmo comportamento pode ser estendido às demais áreas do serviço público. O politicismo consiste em tomar a esfera política como a determinante da existência social, de tal maneira que será sempre no campo da política que todas as contradições se desvelarão. Na prática, o politicismo é aquela ideia de que a cada problema que apareça o governo deverá imediatamente responder com um programa paliativo que nunca vai à raiz da questão. A pulverização dos problemas impõe a pulverização de suas soluções e, soluções pulverizadas, sabemos, nunca são verdadeiras soluções. Ocorre que, na realidade, a esfera política é que é determinada pelas contradições sociais de tal maneira que a não intervenção sobre estas leva sempre ao seu aguçamento e, ao mesmo tempo, à impossibilidade cada vez mais patente da sua resolução pelos meios políticos. 

    A não resolução das contradições sociais, ou pelo menos o enfrentamento das suas consequências pelas vias políticas assemelha-se ao enfermo que reza cotidianamente para recuperar a sua saúde. Como esta não apresenta melhoras porque exige que se faça uma intervenção sobre as causas da doença, a conclusão a que chega o pobre ser exaurido pela doença é que lhe faltou fé, razão pela qual deve, de ora em diante, rezar ainda mais. Assim, os politicistas creem que o fortalecimento político se dá não no enfrentamento das questões sociais, arregimentando para o combate as massas beneficiadas por estas intervenções, mas, ao contrário, que o fortalecimento dá-se pelo conjunto de alianças no interior das instâncias políticas, das forças que supostamente teriam estas massas sob seu comando. Desta forma, os grandes contingentes necessários à promoção de qualquer transformação significativa ficam, de saída, reduzidos à condição de moeda de troca dos caciques políticos operando-se a sua deseducação e desmobilização.

    Isto pode funcionar ocasionalmente, para assegurar ao governo a base necessária para ganhar tempo para preparar-se para a luta que realmente interessa. Mas, como no caso do PT, a escolha já fora feita e a luta deveria ser travada no interior das instâncias políticas, o politicista sempre considera-se despreparado para travar o combate real, até porque, toda vez que pensa em faze-lo, as contradições sociais já se adiantaram e já se apresentam mais intensas, o que faz com que se sinta cada vez mais abatido. Como nosso doente do parágrafo anterior, a solução é mais uma vez rezar, rezar o catecismo dos adversários políticos e formar com eles novas alianças.

   Alianças políticas, no entanto, custam dinheiro. O parlamento não é exatamente uma legião angelical. Sua função, ao contrário do que dele se diz, não é ser o lócus dos grandes debates acerca dos problemas nacionais. Menos ainda é a casa do povo. Ao contrário, sempre foi, é e será um poder que se organiza contra este povo. É parte da forma política com que se organiza a sociedade assentada na exploração capitalista. Ali, tudo e todos se vendem e as honrosas exceções continuarão a ser precisamente isso, honrosas exceções.

    O PT pareceu não ter-se perturbado com isto. Lula, que dissera ser o parlamento o local de encontro de trezentos picaretas, “amadureceu” ao ponto de passar a considerar a “política como a arte do possível”.  Mas, de que possível fala o grande chefe¿ Claro, do possível demarcado pelo leito do politicismo, do possível posto pelo jogo de alianças, do possível posto pela moeda de troca, pela barganha, pela corrupção.

    Que fique claro, portanto, que não foi o PT que inventou este jogo. O jogo da corrupção sempre existiu e continuará existindo em qualquer sociedade de classes. Ele é inerente, não só, mas também ao modo de produção capitalista. Não existe capitalismo sem corrupção em todas as esferas e, particularmente, na esfera política. O que o PT fez foi aceitar este jogo, fazer parte dele, nadar de braçadas no mar de lama. Ou como reconhecem seus militantes mais honestos ou mais cínicos, se os outros fazem, por que nós não podemos fazer?

    O problema não seria maior se esta agremiação partidária tão parecida com as demais, com quem convive de forma mais ou menos amistosa, não tivesse se apresentado ao eleitorado, especialmente nos seus primeiros anos de vida, como a alternativa de uma transformação socialista da sociedade; se não tivesse se apresentado como o Partido da classe que todas riquezas produz mas que delas não se apropria; se não tivesse adotado a bandeira vermelha que sempre representou a luta dos despossuídos contra a opressão e a exploração; e, em um patamar mais baixo, se não tivesse se apresentado como paladino da moralidade.

    Assim, no agravar-se das condições de vida, quando o verniz social vai perdendo seu brilho, o que mais evidencia-se é o lado indefensável da sua prática política. As massas, sempre relegadas ao plano espúrio das negociações e apoios políticos, começam a exigir o que lhes é de direito, ou seja, o protagonismo da vida em sociedade. Já não tendo mais a que santos apelar, tão vasto é o leque de alianças que a nada levou, a combalida agremiação política acuada - que interessante! -  na solidão do poder, nada mais pode fazer senão apelar a mais rezas, não a este ou aquele santo em particular, mas a uma reforma política abstrata que, em um passe de mágica, moralizaria a política brasileira e varreria seus adversários do espectro político. Firma esta crença no fim do financiamento privado de campanha, com uma auréola de santidade como se seus parlamentares nunca tivessem feito largo uso deste reprovável procedimento. O castelo começa a ruir.

     O flanco aberto pelo qual as hordas direitistas sentem-se fortes para atacar pouca importância teria se o ataque viesse apenas a por uma pá de cal sobre a impostura petista. Mas quão iludidos estaríamos se imaginássemos que se contentariam com isso. O alvo é o PT pelo qual nutrem desprezo não pelos vícios aqui apontados, mas por suas pontuais virtudes. Mas sua ira estende-se a tudo que possa, mesmo que longinquamente, lembrar a construção de uma nova sociedade. Os generosos sonhos de uma sociedade sem classes estão hoje distantes dos corações e mentes das massas.

   Por outro lado, a desilusão, a insegurança com o futuro, o medo de apostar novamente em promessas de transformação, a desconfiança nas instituições políticas acompanhadas pela fé inquebrantável no Estado, especialmente no Estado que possa moralizar a política por via das armas e criar as condições de florescimento de uma suposta cidadania, a deseducação e desmobilização postos pelo pensamento único de que a luta de classes não existe mais, o reforço dos preconceitos nacionais como catarse para todo padecimento, enfim, todo um corpo de ideias contraditórias entre si, está jogado ao ar a espera de uma mão qualquer que o conduza a algum lugar que ele não consegue formular onde é.

    Por isso, foi tragicômica a Marcha dos Idiotas realizada ontem por todo país. Ela conseguiu reunir as velhas viúvas da ditadura militar, outros que querem uma intervenção militar constitucional, uma juventude beócia que confunde privatização com liberdade, uma classe média doentia que se põe a falar sobre Cuba e Venezuela sem jamais ter lido qualquer coisa a respeito destes países, gente que confunde o PT com comunismo, Lula com Karl Marx, que pede o fim da corrupção, mas que irrita-se quando se fala em sonegação ou escândalo HSBC, que pede o impeachment da Dilma imaginando que isto fará de Aécio o novo presidente, gente que votou em Collor mas que hoje usa camiseta escrita Dilma com dois “ll”, fiéis tentando exorcizar o mundo do capeta do comunismo, madames esbravejando contra o bolsa-família, covardes que veem ali uma chance de parecerem valentões, oportunistas em busca de alguma visibilidade, chefetes da extinta TFP ,  além de um pretenso herdeiro do trono brasileiro, e uma gama imensa de pessoas que estavam ali sem saber exatamente o que estavam a fazer, mas queriam estar.

    As consequências desta Marcha devem ser avaliadas. É risível o comportamento dos petistas que afirmam ter apenas 210 mil pessoas onde a Globo falava que tinha um milhão. Coisa de criança contrariada. Cem mil pessoas já seria muita gente. Mas, se petista entendesse isto, todos os argumentos aqui levantados seriam invalidados. Esta Marcha, nem sequer as próximas, vão levar ao impeachment de Dilma, exceto se a crise econômica agravar-se demais. Precisa foi a formulação do dantesco senador por São Paulo, Aloysio Nunes: “A intenção é fazer a Dilma sangrar”, ou seja, desgasta-la até o último dia do melancólico mandato, mantê-la acuada para que nem pense em por em discussão a regulamentação da mídia, obriga-la a recolocar na pauta a privatização da Caixa Econômica e, quem sabe, do que restou da Petrobrás. O governo do PT, daqui para a frente em ritmo acelerado, continuará adernando à direita e terminará seu ciclo como um PMDB empobrecido. Isto pouco importa. O que importa de verdade é que a deseducação que impôs aos trabalhadores ao longo destes anos cobrará seu custo nas próximas décadas, um período demasiado longo se considerarmos que o adensamento da crise exigirá desta classe respostas contundentes em bem menos tempo.

"Eu? Eu não sou Charles!"

domingo, 29 de março de 2015

 "Eu? Eu não sou Charles!"

Sergio Lessa*

     O único sinal de que nem todos estavam cegos à realidade era um solitário cartaz, "Moi, je ne suis pas Charles!", na esquina da praça em que, na noite anterior, a prefeitura de Haia, na Holanda, promovera sua manifestação contra o "terrorismo". 
    Menos de dois dias depois, uma multidão de franceses foi às ruas pela "unidade" ao redor do Estado contra o inimigo público número um:  cidadãos franceses tidos por "radicais muçulmanos". Todos eles filhos dos trabalhadores imigrantes que o capital francês trouxe da periferia de seu império para produzir a mais-valia absoluta de que necessita. Enquanto filhos imigrantes, são subfranceses. Deveriam não se revoltar, portanto, contra a condição a que são delegados: o maior desemprego, os piores trabalhos, os menores salários, as piores escolas, as piores moradias, os piores serviço públicos e – claro, de quebra, porque não há mal que venha só – a truculência das forças da ordem.
    O que os eventos de Paris evidenciam é que há duas Franças: aquela que produz a mais-valia absoluta sem a qual o capital não se reproduz, e aquela outra, que parasita esta riqueza produzida também pelos imigrantes. Parte do proletariado francês, sua aristocracia acima de tudo, faz parte do bloco dos parasitas: daqui a posição da maior parte dos sindicatos e organizações dos trabalhadores. Quando não apoiam a repressão ao "terrorismo", se escondem atrás de um revelador silêncio.
    Uma expressão politicamente de direita da revolta dos trabalhadores miseráveis da Franca, o ataque à sede do Charles Hebdo, é aproveitada pelo Estado francês para promover uma gigantesca manifestação contra os mais miseráveis dos trabalhadores franceses.
    Havia radicais muçulmanos a serem mortos antes das aventuras imperialistas francesas? Havia radicais muçulmanos a serem mortos em Paris até terem trazido imigrantes para serem explorados em solo francês?  Os sub-humanos têm – ou não -- o direito de serem elevados a humanos?
     Não houvesse o imperialismo francês reduzido à miséria suas colônias e transferido uma parcela de seus trabalhadores para ser explorada na própria França, os chargistas do Charles Hebdo ainda estariam vivos. Os reféns do supermercado não teriam sido sequestrados e os três jovens não teriam pego em armas. Os policiais também não teriam perdido suas vidas. Não fosse a França uma nação imperialista, todos estariam vivos. Qual é a causa? Qual o causado?
    Os jornalistas do Charles Hebdo mereciam morrer? Claro que não. Mas também não mereciam os reféns, nem os policiais, nem os três jovens que pegaram em armas. O imperialismo francês matou a todos. Defender a morte de uns e condenar as dos outros não passa de hipocrisia: velar as causas, glorificar as consequências. Nesta disputa pela direita, o que decide não é a razão, mas a força! Aquele que ficar vivo por último, "muçulmano" ou parasita, ganhará também o direito (pela força, porque o direito sempre vem pela força) de dizer que "o outro" era aquele contrário à democracia...
    As origem e essência do problema não se situam em um confronto civilizatório nem residem no "radicalismo" de alguns jovens muçulmanos. Estes são apenas as consequências pela direita do espectro político. Não haverá medida capaz de superar tais consequências se as causas não forem removidas. "Je suis Charles" é apenas expressão desta "unidade nacional" que toma as consequências por causas e que oferece como solução o aumento da repressão e da vigilância sobre os trabalhadores mais pobres.
    Além disso, qual a democracia esta "unidade" defende? A verdadeira democracia! Aquela que garante eleições enquanto elas não ameaçam o status quo, aquela que promove Guantánamo e os centros de tortura secretos – aquela que impõe pela força do imperialismo, mundo afora, o que é imprescindível ao capital em sua crise estrutural. Hoje, na França, as restrições à liberdade de imprensa e de manifestações, já antes presentes, estão ainda maiores. Jornalistas e chargistas estão sendo processados por suas posições políticas à esquerda, um cidadão francês protestou em voz alta em frente a uma delegacia e pegou quatro meses de prisão, o "incitamento ao terrorismo" e interpretado pelo Estado francês de modo tão amplo que a fronteira entre a democracia e a ditadura vai se tornando cada vez mais tênue. Este é o conteúdo da "unidade" ao redor do Estado francês: fortalecer a repressão e legitimar a perseguição aos cidadãos franceses contrários ao status quo.
    É por esta legitimidade que promovem o movimento "Eu sou Charles". É por essa razão que nós não devemos ser Charles.

* Membro do Instituto Lukács - Núcleo Maceió/Alagoas.

Por que votar nas eleições?

sábado, 28 de março de 2015


É possível acreditar na política?

Quando se inicia o processo eleitoral, a nossa tão aclamada democracia entra em êxtase. Em pouco tempo surgem cavaletes e banners por toda parte, santinhos espalhados pelas ruas, propaganda eleitoral gratuita, pinturas em muros e também aqueles jingles martelando nossas cabeças, o que nos faz ouvi-los até na hora de dormir. Este imenso ritual moderno, após poucos meses de louvor, finalmente culmina na comunhão das urnas. Uma vez chegado ao fim, retornamos ao cotidiano de nossas vidas, tudo voltar ao “normal” até que se passem dois anos para enfim sermos, mais uma vez, convocados a este imenso culto democrático.
Somos convocados a participar do processo eleitoral, motivados tanto pelos políticos (diretamente interessados em nossa participação no pleito, afinal precisam de nossos votos para se eleger) quanto pela mídia em geral (que nos bombardeia diariamente falando sobre a necessidade do envolvimento da sociedade neste processo). Mas, poderíamos dizer também que nossa participação, ou pelo menos da maioria, é motivada pela esperança de que a permanência ou a mudança na composição política partidária implique em mudanças significativas para nossas vidas.
Em verdade, somos todos inseridos neste processo eleitoral de forma tão sutil, que temos a impressão de que tudo é muito natural. É comum reproduzirmos as exigências da nossa sociedade sem questionar o real sentido das coisas, afinal, muitas delas acontecem desde muito antes de nós nascermos. Até que certo dia, paramos e pesamos: “porque as coisas são assim?”. Na maior parte das vezes não encontramos uma resposta imediata, até porque não são questões simples de responder. Precisamos, inclusive, ter certo “desconfiômetro” para respostas fáceis demais, elas podem ser muito superficiais, ou até cheias de interesses ocultos. Afinal, tem muita gente buscando respostas para os seus próprios problemas, inevitavelmente aparece alguém querendo nos dar as respostas. Este é o retrato das propagandas eleitorais: respostas simples para problemas difíceis.
Infelizmente, nem todos os problemas podem ser tão facilmente resolvidos como propõem os candidatos. Uma forma de perceber isso é refletir sobre o que realmente mudou desde que certo candidato foi eleito. Certamente muita água passou por debaixo da ponte, e até pode ser que a vida de alguém melhorou de uns anos pra cá, mas será que isso vale para a grande maioria das pessoas? Será que todas as classes sociais se beneficiam igualmente do tão idolatrado crescimento econômico brasileiro? Essas mudanças são “grande coisa” para a maior parte dos trabalhadores? A vida está fácil para você? O tempo está cada vez mais corrido, a ponto de desejar que o dia tivesse mais que 24 horas? Pois é, por que isso tem que ser assim? É possível mudar?
Como vê, não são perguntas fáceis, e dá logo um nó na cabeça só de pensar. No fim das contas, todo mundo tem um pouco a reclamar sobre a política. Pensando bem, é comum ouvirmos falar da política como algo “podre” e “desprezível”, que o parlamento mais parece um ninho de víboras brigando por interesses mesquinhos. Algumas pessoas costumam dizer que “tal político é bom, pois ele rouba, mas faz”! A que ponto pode-se chegar a naturalização da corrupção? Mas se esses atos de corrupção e má administração não escapam aos olhos dos eleitores, por que continuamos votando? Consequentemente, a corrupção aparece como o grande problema da política brasileira. Mas será que a corrupção é o grande problema, ou está sendo causado por algo ainda maior? 
No fim de 2012 circulou nas redes sociais o trecho da entrevista de um dos deputados mais bem votados do país (1,3 milhões de votos), o palhaço Tiririca: “Eu não sei se pretendo continuar [na política], por ser muito difícil lá dentro [da Câmara dos Deputados] [...] Eu pensei que chegando à condição que eu cheguei, ia lá e ia aprovar projetos que iam beneficiar a população e essas coisas todas, mas não é assim. Há outros interesses” (Folha Política, 2012)
Se o Tiririca está sendo sincero ou não, nem vem ao caso, mesmo porque ele se reelegeu em 2014. Mas o que será que ele quis dizer com “há outros interesses”? Suas palavras podem ressoar fundo em nossas consciências. O palhaço, enfim, percebeu que os problemas sociais não são uma piada? Ou descobriu que o picadeiro político, na verdade, oculta o verdadeiro sentido da existência do Estado? O que aparece como uma grande “tragédia da corrupção” esconde a verdadeira face da política? Não será possível uma política para o “bem comum”? É possível existir uma política ética?
      Este pequeno texto não tem a menor intensão de apresentar respostas prontas para tantas perguntas. Tentar fazer isso em tão poucas linhas seria, no mínimo, ingênuo. É necessário refletir sobre cada um destes problemas antes de comprar as repostas mastigadas que são vendidas por aí nas propagandas eleitorais. Não nos deixemos enganar! É necessário desconfiar das coisas, investiga-las, bem como refletir sobre elas.
Para começar, deixaremos mais uma pergunta no ar: se os políticos não estão no congresso defendendo nossos interesses, como parece dizer Tiririca, quais são os interesses que eles defendem?


2.      Quais são os “outros interesses” da política?

Tem muita gente que já não suporta mais tanta propaganda política. Realmente é uma coisa muito chata de ver. Parece propaganda de um produto qualquer que está sendo vendido na liquidação. É um verdadeiro massacre de poluição visual e sonora. Imagens e números estão sendo liquidados. Anúncios simpáticos cheios de palavras bonitas, frases de efeitos e fabulosas promessas de governo. E como a propaganda é a alma do negócio, ganha o melhor anúncio, não o melhor produto. É uma verdadeira mercantilização do processo eleitoral. Além do mais, se o “consumidor” não ficar satisfeito, não dá pra devolver o produto. Impeachment é coisa rara por aqui. É tanta burocracia, que pra tirar um político do poder não é brincadeira.
Se eleger também é uma coisa difícil. Partidos fazem coligações para ganhar mais tempo na TV. Também é preciso muito dinheiro para pagar uma boa propaganda que consiga se destacar em meio a tantas outras. Isso é tão importante que é bem comum os partidos (quando não fazem caixa dois) buscarem financiamento de suas campanhas na iniciativa privada. Um exemplo escandaloso foi a doação de R$ 100 mil feita pela empresa multinacional Gerdau para a campanha de Luciana Genro (Psol), que concorreu em 2008 à prefeitura de Porto Alegre (Terra, 2008).
Quanta generosidade da Gerdau que, sem “nenhuma” segunda intenção, decidiu fazer a boa ação de ajudar uma pobre candidata sem recursos próprios. Até parece... só mesmo com uma boa dose de ingenuidade poderíamos acreditar que realmente não existe nenhum interesse por traz dos financiamentos privados das propagandas eleitoras. Quando trazemos a tona este caso, fica mais fácil responder a pergunta feita anteriormente, em cima da observação feita por Tiririca sobre a existência de “outros interesses” no congresso.
Sem muito esforço, dá pra perceber que o processo eleitoral não é mesmo a busca pelo “bem comum”, a não ser que se refira ao bem comum dos empresários e políticos. E nesse processo – onde se evidencia a luta de classes na qual os políticos, sem exceção, se colocam do lado do capital – as medidas socialdemocratas de cunho levemente keinesiano do PT, que distribui alguns recursos entre trabalhadores e desempregados para aumentar o consumo e encher os bolsos dos grandes empresários e banqueiros, parece ser a salvação da lavoura. O “governo dos trabalhadores” do PT, na verdade poderia se chamar de governo dos banqueiros e empresários.
Se refletirmos bem, é fácil perceber que ações políticas buscam privilegiar muito mais interesses do grande capital. É o que vemos com a reforma do código ambiental, com o leilão do campo de petróleo de Libra (o famoso pré-sal) para empresas multinacionais, com a isenção de impostos e concessão da propriedade pública para empresas privadas e com o investimento em empresas terceirizadas para a construção das obras da copa. Até mesmo nas construções de casas populares, as construtoras saem ganhando mais que os próprios moradores, que enfrentam filas e burocracias para garantir o benefício.
Quando nos perguntamos sobre os interesses de alguém, devemos primeiro descobrir quem é essa pessoa. Se quisermos saber quais são os interesses políticos de determinado grupo devemos nos perguntar a quem ele quer beneficiar. É perfeitamente possível que existam interesses na sociedade que sejam antagônicos, ou seja, contrários uns aos outros. Aumento de salário, por exemplo, é interesse do trabalhador, não do patrão, que sai perdendo com isso. Essa disputa de interesses no interior da sociedade foi o que Marx chamou de “luta de classes”.
Cada pessoa cumpre um papel específico dentro da sociedade, realizam diferentes funções sociais. Consequentemente pertencem a uma classe particular de indivíduos. Se os seus interesses dependem muito de quem você é, sua ação política também vai depender muito da classe social a que você pertence. Claro que isso não é algo absoluto, pois o desenvolvimento de sua consciência é um processo cheio de particularidades, podendo haver exceções no que se refere aos interesses dos indivíduos de uma classe social.
Dá pra notar que alguns interesses são radicalmente inconciliáveis? Isso quer dizer que nem sempre é possível favorecer um lado sem prejudicar o outro. Algumas coisas na vida são assim. Se quisermos mesmo resolver este problema é preciso encarar a realidade. Quer dizer que é possível resolver a coisa toda? Claro que sim!  Por que não? Nós construímos essa sociedade, então, nós podemos “consertá-la” ou até mesmo “reconstruí-la”. Basta tomarmos consciência dos problemas e usarmos o que temos em mãos para eliminá-los.
Perceba que não basta ter força de vontade para mudar a sociedade. Infelizmente as coisas não parecem funcionar assim. Não acha? É claro que é preciso ter vontade para fazer as coisas, mas esta vontade não age sozinha, e ela mesma depende das condições sociais em que nós nos encontramos. A própria incapacidade dos políticos em solucionar as desigualdades sociais não se trata de uma simples “má vontade” da parte deles. Mas então quer dizer que os políticos são inocentes dos crimes de corrupção? Vamos com calma!  Também não é assim. “O buraco é [bem] mais embaixo”. Mas sobre isso falaremos adiante.

3.      Os problemas sociais do Brasil são culpa da incompetência dos políticos?

A corrupção, certamente, é uma das características mais marcantes da política. Provavelmente temos a impressão de que este é um problema especialmente dos políticos brasileiros, mas infelizmente não é bem assim. Apenas temos essa impressão porque vivemos aqui. Lógico que se nos limitarmos ao que podemos perceber em nosso cotidiano, chegaremos a conclusões parecidas com essa. Mas não nos enganemos, o Brasil não é um país “pobre” porque temos muitos corruptos no Estado. Esta não é a causa do problema, mas apenas um de seus efeitos.
Será mesmo que o Estado poderia estar comprometido com as necessidades de toda a população? Esse sistema só não funciona mesmo por culpa dos políticos corruptos? Será algo tão simples assim? Para começar, basta observarmos o cotidiano nas ruas das cidades para perceber que o programa “fome zero” não passou de uma grande propaganda política, com irrelevante validade do ponto de vista real. Imagine se todas as nossas necessidades vitais (saúde, moradia, alimentação) fossem completamente garantidas pelas instituições públicas. Certamente, dentro desta condição, seria mais cômodo para o trabalhador recusar um emprego que não valesse a pena, os patrões precisariam oferecer salários cada vez mais altos a fim de atraí-los para suas empresas e isso certamente iria afetar bastante seus demasiados lucros.
Neste sentido, a miséria e o desemprego são muito úteis para o capital, uma vez que cumprem a função de rebaixar os salários dos trabalhadores empregados ao mínimo possível. Não seria interessante, do ponto de vista do capital, que o Estado garantisse a sobrevivência de todos os trabalhadores, pois é justamente a necessidade de sobrevivência que faz com que estes trabalhadores não vejam outra saída a não ser vender sua força de trabalho, mas o Estado não pode deixar que se torne visível este seu comprometimento com as necessidades do capital, pois isso seria um grande perigo para a conservação da sociedade capitalista. Esta contradição é velada quando tudo parece ser apenas um problema da corrupção do Estado, e não que o Estado seja parte do problema. A corrupção, neste caso, é somente a aparência deste problema, não a sua essência.
Mais acima, concluímos com a ideia de que a incapacidade do Estado em solucionar as desigualdades sociais não é culpa da “má vontade” dos políticos. O governo, ao reprimir as greves dos trabalhadores, ele não o faz simplesmente por ser um incômodo aos políticos, não é simplesmente isso, apesar de serem escolhas, é necessário analisar as condições em que estas escolhas foram feitas.
Os políticos tomam suas decisões porque este é o seu papel dentro do Estado. É exatamente para isso que serve esta instituição política, para impor as necessidades particulares de uma classe social sobre as demais. Quando o Estado se comportou de maneira diferente?
Quando os políticos tomam medidas que prejudicam os trabalhadores, estão justamente cumprindo sua função dentro da máquina estatal. Eles se percebem constrangidos a realizar este papel, incorporando profundamente estas exigências como se fossem fruto de sua própria vontade. Aqueles que não incorporam estas vontades não conseguem apoio político para assumir um mandato, ou até mesmo se frustram com a política, como parecia ser o caso do palhaço Tiririca. Assim, a vontade pessoal de um político específico não vai ser atendida se não estiver de acordo com os interesses citados acima.
Esta situação é perfeitamente possível. Imaginem, por exemplo, que um trabalhador, quando decide procurar por emprego, não faz isso simplesmente porque esta é a sua vontade, ele o faz porque é constrangido a fazer, porque se não fizer, não encontrará outro meio de sobreviver. O trabalhador busca por alguém que explore sua força de trabalho, uma situação que só observamos de maneira generalizada no capitalismo, ao contrário do escravo, que era forçado a trabalhar, o assalariado caminha com suas próprias pernas para o local onde será explorado.
Do outro lado, um empresário não pode tomar decisões que prejudiquem a sua condição social, ou ele correrá sérios riscos de perder seu negócio, uma vez que está concorrendo com outros empresários pelo mercado consumidor. Desta forma, ou ele explora seus trabalhadores o máximo possível, ou corre riscos de entrar em falência. O patrão não é a personificação do mal, isso não existe. Ele apenas está realizando sua função enquanto classe que explora a força de trabalho alheia, sendo, na verdade, uma personificação do capital. Ele só é burguês enquanto colocar em movimento as forças sociais que reproduzem o capital.
Pode parecer confuso, mas esta é a maneira como se comportam os indivíduos no capitalismo. Realizam suas funções mesmo que não tomem consciência disso, mesmo que ajam de maneira alienada, ou seja, sem reconhecer a essência de suas ações, mas percebendo somente a aparência que elas tomam. Essas foram as observações de Marx, Mészáros e outros pensadores que investigaram profundamente o sistema do capital. É claro que não será possível aqui expor todos os detalhes desta relação, a intenção aqui é somente chamar a atenção para a complexidade deste problema, pois se trata de algo muito mais complicado do que imaginamos, é necessário muita paciência para encontrar as respostas certas.
De maneira geral, a atividade política dos indivíduos se baseia muito na classe social que eles representam. Em nossa sociedade os interesses que prevalecem são os interesses do capital. A grande questão é que o Estado não é capaz de contrariar estes interesses. Mesmo que mude sua forma (mudando a maneira de se fazer política) sempre garante a acumulação do capital. Quando isso não acontece, as classes dominantes reagem de forma violenta. Abaixo traremos dois exemplos históricos para melhor entender estas questões: o caso chileno e o caso russo.

4.      O Estado pode controlar o capital?

A democracia tem origem na palavra grega demokratía, que é composta de demos (povo) mais kratos (poder). Esta palavra carrega o sentido de que o poder é exercido pelo povo. Entretanto, na prática, é preciso uma discussão mais profunda a respeito deste tipo de regime político. Até aqui vimos que é uma grande “injustiça” culpar a corrupção isoladamente por todos os problemas políticos brasileiros ou de qualquer outro país. Tudo indica que o problema é muito mais sério que isso. O que estamos querendo mostrar é que tudo depende da maneira como nossa sociedade está organizada. Neste sentido, o nome desta sociedade (capitalista) já dá uma boa dica de quais interesses predominam na cena política. Este foi o tema central do ponto “Quais são os ‘outros interesses’ da política?” mostrando, inclusive, que alguns desses interesses são antagônicos. Nem sempre é possível agradar gregos e troianos.
O ponto anterior teve como objetivo chamar atenção para a função social do Estado, ou seja, qual o seu papel em nossa sociedade. Bem, tudo leva a crer que o Estado não existe para solucionar as desigualdades sociais, mas, ao contrário, serve para reproduzi-las. O Estado não serve para controlar o capital, independente da forma que tome. Isso não depende da simples vontade dos parlamentares, não se trata apenas de querer fazer uma política diferente. Os “outros interesses” por traz do Estado são os interesses do próprio capital, é isso que está em jogo para os políticos. São as necessidades do capital que prevalecem na política atual. Mesmo quando os políticos agem contra os interesses do capital, logo são forçados a abandonar suas funções.
Tudo bem, agora chega de abstração e vejamos alguns exemplos. No Chile, o governo de Salvador Allende, que tentou realizar uma drástica reforma agrária e a nacionalização das indústrias, provocou uma reação violenta das classes dominantes chilenas. Estas, com o apoio dos Estados Unidos da América, arquitetaram um golpe militar, que chegou ao extremo de levar o país a uma das ditaduras mais violentas da América Latina, a de Pinochet.
Basta fazer uma pequena pesquisa para confirmar este caso. Quando o Estado chileno tentou tomar o controle do capital, logo encontrou a violenta resistência de suas personificações (sobretudo as classes da burguesia industrial e latifundiária). A forma de governo ditatorial do Pinochet, por sua vez, apenas mudou a maneira de se fazer política da sociedade chilena, sem alterar sua estrutura econômica, além de preparar o terreno para as mais intensas reformas neoliberais do continente. Estes fatos revelam que o Estado serve como ferramenta utilizada pelo capital para perpetuar o seu regime.
Quer dizer que se o Estado chileno tivesse concluído a nacionalização das indústrias e a reforma agrária, ele teria mesmo controlado o capital? Bem, tudo indica que não é bem por aí. Podemos observar, por exemplo, os resultados da revolução russa de 1917. A princípio surgiram inúmeros conselhos operários (soviets) assumindo a direção de diversas fábricas por toda Rússia. Aos poucos o Estado, sob a direção do partido bolchevique, tomou novamente o comando político da sociedade, além de se transformar no grande gestor da economia.
Ainda assim, a revolução não se generalizou nas relações sociais de produção, ou seja, a maneira como os indivíduos produzem as riquezas da sociedade continuou inalterada. Assim, como as bases do antigo sistema não sofreram modificações, o capital não foi destruído na antiga União Soviética, conforme István Mészáros afirma em seus estudos. Os trabalhadores continuaram sendo explorados, pois permaneceram sem a posse do excedente produtivo. Entretanto, este excedente, ao invés de ser apropriado diretamente por capitalistas particulares, era apropriado pelo Estado. Desta forma, o que existiu na União Soviética não foi o comunismo, no sentido de uma sociedade sem classes sociais, mas uma sociedade onde a propriedade dos meios de produção foi transferida para o Estado.
Podemos ver que as desigualdades sociais não serão eliminadas com uma simples mudança da direção política do Estado. Não quer dizer que estas mudanças na política não reflitam na estrutura econômica da sociedade. Caso contrário, tais mudanças não fariam o menor sentido. Entretanto, elas não passam de “ajustes” que buscam contornar as barreiras que impedem a acumulação do capital. Neste sentido, ajustes na direção política do Estado podem até proporcionar uma maior eficiência da sociedade capitalista, impulsionando um crescimento econômico do país. Mas não podemos esquecer que este crescimento se reflete de maneiras diferentes na vida de cada um, atingindo cada classe social de uma forma específica e extremamente desigual.
Quando observamos o crescimento da economia brasileira, por exemplo, este crescimento se acumula nas mãos de poucas famílias. Quando o governo faz sua propaganda política, é muito conveniente ignorar que nem todo mundo se beneficia do vangloriado crescimento econômico. Quem acumula a maior parte da produção de riquezas do país são os capitalistas. Tanto o partido dos trabalhadores, quanto qualquer outro partido que esteja no poder, governa, na verdade, para o capital. Não importa qual seja o regime político. Seja ele extremamente autoritário como os fascistas (a Alemanha de Hitler), seja ele uma ditadura militar como os anos de chumbo no Brasil, ou até mesmo um regime como a nossa atual democracia representativa, o Estado moderno é sempre o Estado do capital. Além do mais, por mais vantajosas que sejam as liberdades democráticas para os trabalhadores, elas são mais vantajosas ainda para o capital. Como isso é possível? Bem, estas serão as cenas do próximo ponto.


  A democracia na política e a ditadura na economia

Primeiramente é preciso relembrar algumas ideias apresentadas acima. Vimos que os indivíduos que fazem parte da sociedade possuem interesses distintos, sobretudo no que diz respeito às lutas econômicas como, por exemplo, as lutas por melhores salários. Muito bem, por que isso acontece? 
Cada indivíduo que vive na sociedade cumpre uma função diferente dentro dela, por isso faz parte de uma classe social específica – o que não muda o fato de o indivíduo ter a possibilidade de se vincular ideologicamente a outra classe. Alguns destes indivíduos são responsáveis pela transformação da natureza nos bens necessários para a sobrevivência da sociedade, enquanto seres vivos. Transformam, por exemplo, algodão em tecido, e este, por sua vez, numa roupa. Sem esta transformação da natureza nos bens necessários para nossa existência não seria possível a vida em sociedade. Entretanto, nas sociedades de classes, o fruto deste trabalho não fica nas mãos dos produtores, mas é apropriado por uma classe dominante. Neste sentido, as duas grandes classes antagônicas do capitalismo são a burguesia e os operários (industriais ou rurais). Os operários são os indivíduos que transformam a natureza em riquezas, que são diretamente apropriadas pelos burgueses, as demais classes também ficam com uma parcela da riqueza produzida pelos operários, por mais que também sejam exploradas de alguma forma.
O trabalhador não é totalmente livre ao ponto de escolher onde e como trabalhar. Graças a uma série de processos históricos, que não será possível discutir aqui, os trabalhadores foram separados da terra onde produziam seu sustento, de maneira que já não possuem outra forma de sobrevivência a não ser vender sua força de trabalho em troca de um salário. Neste sentido, o trabalhador é constrangido a procurar por um patrão que o explore. Afinal, pior do que ser explorado é não ter ninguém para lhe explorar. Logo, a liberdade que o trabalhador possui no capitalismo é bastante limitada.
O limite da liberdade entre os indivíduos é um reflexo das suas condições de vida, afinal nem todas as pessoas são iguais. O direito afirma que todos os indivíduos são iguais perante a lei, mas não são iguais do ponto de vista material. Enquanto uns vivem bem, outros vivem mal. Como o direito iguala todos os indivíduos do ponto de vista político, cria-se a impressão de que todas as pessoas são igualmente livres nos outros aspectos de suas vidas. Neste sentido, a democracia cria uma falsa impressão de que toda a população é responsável pela direção política do país, uma vez que elegem seus representantes legais para participar da gestão do Estado.
Enquanto vivemos em uma democracia política, no dia-a-dia de nossos trabalhos vivemos uma verdadeira ditadura. Não possuímos o menor poder de decisão dentro das empresas em que trabalhamos. Os proprietários e seus gestores simplesmente decidem tudo de cima pra baixo. Decidem o que produzir, quando produzir e de que forma produzir. Os trabalhadores simplesmente cumprem estas ordens. 
A própria ideia de democracia precisa ser relativizada e questionada. Apesar da invenção deste modelo político ser atribuída aos gregos, a democracia ateniense, por exemplo, era bem diferente da qual estamos acostumados hoje. Além de ser fundada em uma base social escravista, que também excluía as mulheres e estrangeiros, o sistema político em Atenas não era representativo, ou seja, os cidadãos não escolhiam representantes com mandados deliberativos, as decisões políticas eram tomadas pelos próprios cidadãos em assembleias, e os cargos públicos eram escolhidos por sorteio, de tal modo que os escolhidos apenas executavam as decisões das assembleias.
A ideia de representatividade também é questionada pelo pensador iluminista Jean-Jacques Rousseau
Os representantes do povo não são, nem podem ser, seus representantes; não passam de seus comissários, nada podendo concluir definitivamente. É nula toda a lei que o povo não ratificar diretamente; em absoluto, não é lei. O povo inglês pensa ser livre e muito se engana, pois só o é durante a eleição dos membros do Parlamento; uma vez eleitos, ele é escravo, não é nada. Durante os breves momentos de sua liberdade, o uso que dela faz mostra que merece perdê-la (ROUSSEAU apud MÉSZÁROS, 2011, p. 828).
Segundo o pensamento de Rousseau, a representatividade política que adotamos hoje como modelo máximo de democracia não é sequer uma forma de liberdade política. Os representantes se elegem pelo voto popular, mas tomam decisões a revelia dos seus eleitores. Isso significa que ele possui um mandado deliberativo, podendo fazer escolhas apenas segundo a sua vontade e de seu partido. Não existe vontade popular nas decisões do senado brasileiro, apenas decisões que são tomadas por aqueles que se saíram melhor no milionário jogo eleitoral.
Como este modelo de representatividade foi incorporado por nossa tradição política, ele é reproduzido pelos próprios trabalhadores quando estes se organizam em sindicatos, elegendo direções que possuem mandados deliberativos. Porém, estas direções restritas se tornam alvos frágeis ou fáceis para os governos e patrões que buscam cooptá-las, fazendo acordos dentro de gabinetes que geralmente acabam em manobras para desmobilizar os trabalhadores.
Criticar a democracia representativa também não basta. Uma “democracia direta” por si só não é uma solução para as classes trabalhadoras, como podemos observar na democracia ateniense, que apesar de ser direta, excluía mulheres, estrangeiros e escravos e não resolveu o problema da desigualdade social. Pois, é inútil para a classe trabalhadora pensar em novas formas de organização política sem antes pensar no caminho necessário para tomar o controle das riquezas que produzem coletivamente com o seu trabalho, mas que são apropriadas de maneira privada pelos seus patrões. Contudo, esta realidade já está tão enraizada em nossa sociedade que até parece natural que as coisas sejam desse jeito. “É assim e ponto final”.
Na sociedade capitalista, falar no fim da propriedade privada é um sacrilégio muito maior que todos os pecados cristãos juntos. É simplesmente inaceitável. Para o dono da empresa, é inconcebível pensar em dividir o controle da produção entre os seus trabalhadores. Mas será mesmo que as coisas têm que ser assim? Bem, certamente elas nem sempre foram desta forma. Foram necessários muitos séculos para que os capitalistas conseguissem conquistar este poder. 
Seguindo este raciocínio, o verdadeiro poder da sociedade não está na escolha de seus representantes legais no Estado, mas no controle das riquezas socialmente produzidas. Quando a democracia cria esta aparência de liberdade, está apenas reproduzindo uma realidade alienada, que não revela sua verdadeira natureza. A intensificação das alienações apenas facilita o controle da vida social pelo capital, uma vez que oculta dos indivíduos a verdadeira origem das desigualdades sociais e a maneira de resolvê-las.
Votar em um candidato diferente nas eleições não mudará em nada a raiz dos nossos problemas. Não é desse poder de decisão que nós precisamos. Vamos pensar um pouco a respeito. Claro que não se trata de problemas fáceis de resolver, e cada um precisa se convencer da coisa certa a fazer. Precisamos perceber que enquanto realizamos a democracia nas urnas, vivemos sob uma verdadeira ditadura no trabalho. Não decidimos nada em nossos empregos. 
Chegando ao fim das reflexões que fizemos sobre a nossa democracia, como pensar numa resposta para a pergunta colocada no título deste artigo? Por que votar nas eleições?
Sinceramente, você também compartilha de um sentimento de desesperança quando percebe que o simples ato de votar não faz muito sentido? A falta de perspectiva na política lhe causa uma sensação de que tudo está perdido? O que realmente nos impede de mudar? Pense no que poderia ser feito se as decisões tomadas em nosso trabalho fossem coletivas? Todos poderiam se satisfazer, uma vez que a sociedade já produz em abundância (as crises de superprodução estão aí para comprovar isso). Poderíamos votar no que produzir, em quanto tempo produzir, como produzir e, o mais importante, o que fazer com esta produção. Fala a verdade, este voto sim valeria a pena.

6.      Qual alternativa possível?

De dois em dois anos, o país suporta o frenesi das campanhas eleitorais. Com o cinismo de costume, os candidatos e seus coligados aproveitam a situação para por em primeiro plano a necessidade de se investir em saúde, educação e outros serviços básicos, como se tivesse sido habitual em todos os mandatos anteriores, seja do partido de oposição ou da situação. Por acaso você já se perguntou o porquê de ano após ano, mandato após mandato, a situação nunca mudar significativamente para os trabalhadores? As contradições da sociedade são um mero problema de gestão? Ou são elas inerente ao próprio sistema? Por que motivo nenhum governo, em nenhum lugar do Brasil e do mundo, ao longo de tantos anos, foi capaz de resolver tais problemas sociais tão conhecidos por todos, como o desemprego, analfabetismo, fome e qualidade em serviços como educação, saúde, transporte? Por um acaso existe algum partido capaz de resolver tais conflitos?
Durante as campanhas eleitorais, existe sempre a preocupação, por parte do conjunto das forças ditas democráticas, dos partidos de “direita” ou de “esquerda”, de fazer com que o máximo de eleitores vá às urnas para cumprir seu dever de cidadão. Essa propaganda política possui grande importância para o Estado democrático da burguesia, já que existe um ceticismo crescente, que permeia no seio da população, quanto à utilidade das eleições, visto nas mobilizações de junho (2013), contra o aumento da passagem de ônibus e outras pautas, e também nas mobilizações contra a corrupção na copa das confederações (2013) e na copa do mundo (2014).
Todos os candidatos professam um discurso puramente falacioso. O grupo que governa fala os investimentos feitos para melhorar o país (geralmente usando exemplos que são exceções, ou que não são tão verdadeiros assim). Os que compõem a oposição, por sua vez, falam da corrupção dos atuais mandachuvas (o que não deixa de ser verdade, mas nunca sendo uma exclusividade apenas destes) e que estão prontos para assumir a administração para lutar por um país melhor. A história vem demonstrando que a corrupção é algo inerente ao Estado, qualquer um que se integrar a ele tem que se adaptar a isso. Os políticos estão sempre envolvidos em algum caso de corrupção e/ou de desleixos de administração.
Mesmo assim, não aparece no discurso de nenhum candidato que estarão integrados lado a lado com a ditadura de classe da burguesia. Ao sinal de qualquer luta autônoma de trabalhadores contra as ofensivas às suas condições de vida, o Estado estará de prontidão para defender a ordem e a lei com a autoridade e repressão que for preciso, e com isso estarão cumprindo nada mais que seu papel.
A precarização atual da sociedade ocorre em meio à intensificação brutal da crise capitalista, estando intimamente relacionada a ela. Encurralados pela crise, os Estados implementam cortes sistemáticos nos setores públicos: diminuem os salários dos trabalhadores; aumentam o número de contratados temporários (REDAs); estendem a jornada de trabalho, tornando mais duras as condições de trabalho; deixam no maior abandono as instalações educacionais, de saúde ou de qualquer outro serviço que atenda o público de massa, abrindo espaço para o estabelecimento de empresas privadas.
O que nos espera não é esse futuro privilegiado que anunciam as autoridades, mas sim o pesadelo do desemprego e da precariedade. Essa é a lógica destrutiva do capital.
O capitalismo não tem a menor perspectiva a oferecer algo para a humanidade, a não ser guerras cada vez mais bestiais (como o extermínio realizado por Israel contra os palestinos na Faixa de Gaza), catástrofes ambientais mais trágicas, além do aumento da miséria e da barbárie para a grande maioria da população mundial.
Ainda assim, muita gente continua a concordar com a participação no jogo político como forma de utilizar os espaços das propagandas como meio de transformar a realidade. Como os defensores dessa estratégia não são “farinha do mesmo saco”, nós apresentaremos adiante três visões mais difundidas em nossa sociedade.

A defesa conservadora

Muito embora nenhum partido político tenha coragem de dizer que o mundo em que vivemos é um mundo ideal, a maioria deles defende que devemos encarar a vida como ela é e aceitar que não existe um modelo de sociedade melhor do que a capitalista. Geralmente se baseiam no argumento central de que os seres humanos são naturalmente egoístas, e que a competição no mercado sempre será a alavanca que impulsiona o desenvolvimento econômico. Logo, a defesa conservadora assume uma postura extremamente determinista, ou seja, a competição econômica sempre determinará a maneira como as pessoas constroem a sociedade em que vivem. Consequentemente, se não podemos superar o capitalismo, nossa única opção é aperfeiçoa-lo.
O grande slogan do grupo conservador foi claramente expressado na famosa frase tantas vezes repetida pela ex-primeira ministra britânica Margaret Thatcher, “there is not alternative” (não há alternativa). Na prática, a mensagem que Thatcher estava passando é que não existe nenhuma opção melhor para a competitividade do mercado capitalista. Esta posição ficou conhecida como “princípio TINA” (abreviação da frase em inglês).
Esta opinião é tão forte que nos estatutos e cartas de princípios de partidos políticos como DEM, PMDB e PSDB – apenas para ficar com exemplos mais conhecidos – sequer considera a possibilidade de uma sociedade diferente da capitalista. O máximo a que estes partidos podem chegar em suas propostas é uma defesa vazia do trabalhador diante dos exageros do capital, mas sequer dizem como protegê-los da exploração sem prejudicar os lucros ou sem profanar a propriedade privada da burguesia.
Apesar dos partidos citados não se considerarem necessariamente conservadores, não julgam necessário questionar a viabilidade de uma mudança radical na sociedade em que vivemos, logo buscam conserva-la. Estes partidos preferem pensar na política por si só, sem questionar as bases econômicas sobre as quais cada governo é constituído. Consideram as relações capitalistas como naturais e o governo democrático como o mais civilizado. Logo, defendem a participação política nas eleições que escolhem os representantes do povo como o melhor meio de aperfeiçoar a sociedade capitalista.

A defesa reformista

O discurso reformista é aparentemente mais radical do que aquele analisado anteriormente. Não assumem o slogan de que “não há alternativa”, e alguns grupos chegam a defender abertamente a superação do capitalismo e a construção de uma sociedade socialista. Entretanto, o caminho para isso seria percorrido no interior das próprias instituições políticas democráticas que possuímos hoje, ou seja, acreditam que a luta pelo socialismo deve ser necessariamente encaminhada para o interior do Estado, participando dos processos de decisão dentro do parlamento. A estratégia é basicamente reformar o capitalismo por dentro até que ele deixe ser o que é.
Também defendem o direcionado da luta dos trabalhadores para dentro dos limites dos sindicatos, que exercem um forte controle sobre as assembleias e tendem a encaminhar todas as greves para negociações a portas fechadas com o Estado e com os patrões. Os próprios sindicados, assim como os governos, se baseiam no regime democrático representativo, onde o eleitor abre mão de sua participação direta e escolhe o representante para defender seus interesses em ambientes restritos e controlados por aqueles que os exploram.
De um lado PT, PCdoB e Consulta Popular e, de outro, o PSOL, são exemplos típicos de organizações políticas reformistas. Todos eles enxergam na reforma das instituições democráticas do Estado brasileiro o melhor caminho para favorecer as “classes populares”, ainda que os discursos individualizados assumam particularidades que parecem mesmo os colocar em campos distintos.

A defesa pseudo-revolucionária

Existem ainda aqueles que participam do processo eleitoral com uma justificativa tática, não de conquistar o poder do Estado por vias democráticas, mas de ocupar o espaço das propagandas eleitorais no rádio e na TV, para propagandear uma ideologia revolucionária e denunciar os problemas do sistema capitalista (PSTU, PCB, PCO). Não acreditam que a democracia representativa é o caminho para a tomada do poder político pelos trabalhadores, mas que apenas um processo revolucionário será capaz de tirar os burgueses e latifundiários do poder. Além deste ser um discurso falacioso, tais partidos nutrem em seu âmago o desejo de uma vitória, para assumirem e, como o PSTU, dizer que a remuneração paga a seu político é todo direcionado às ações do partido.

O que fazer?

O passo inicial para uma mudança é duvidar das verdades que crescemos ouvindo. Mas é apenas o começo. A discussão e a busca por conhecimento, seja por livros e jornais, debates ou conversas informais, mobilizações e até mesmo na internet, também é de fundamental importância. Sem perder de vista o primeiro passo, de também duvidar desses meios. Do contrário, é impossível compreender a realidade e assimilar de maneira coerente a situação.
A via eleitoral encontrada por todos esses partidos citados e tantos outros modificará muito pouco a vida social, menor ainda serão os benefícios destinados às classes populares. Vivemos numa época de crise geral desde a década de 1970. Uma crise que alcança todos os setores de produção em todos os países do mundo. A economia capitalista não conseguiu mais alavancar um crescimento considerável desde então. Diante dela, não podemos nos fechar em visões conservadoras, reformistas ou pseudo-revolucionárias, muito menos em visões corporativistas e nacionalistas. Estes métodos certamente leva a luta dos trabalhadores ao fracasso e à impotência, fazem da mobilização algo estéril e desmoralizante. As mobilizações sindicais são a ilustração disso, eles motivam os trabalhadores a entrarem em greve e depois fazem acordos com o Estado e patrões que nunca trazem vitórias significativas. Dessa forma, os trabalhadores se cansam de lutar, achando que nada que façam valerá a pena.
É necessário evidenciar que qualquer candidato, seja do atual governo ou da oposição, que se utilize de qualquer discurso oportunista, são representantes fiéis do regime capitalista. Mesmo que se enfrentem furiosamente, não fazem nada mais que decidir qual a fração mais favorecida com a exploração dos trabalhadores. São todos agentes do capitalismo, controlados pela necessidade que o capital tem de se expandir. Mas graças à tradição e ao hábito, a maior parte da população não se nega a participar do circo eleitoral, por mais tosco que este seja, pois a mistificação eleitoral está estreitamente ligada com a ideia de democracia representativa que temos hoje. Toda a vida social no capitalismo está organizada pela burguesia em torno do Estado, seja ele “democrático” ou déspota.
Infelizmente, os trabalhadores nunca conquistaram nada significativo e permanente lutando pelas vias democráticas do Estado, e notar que isso é apenas uma ilusão é um avanço significativo. A verdadeira força da classe trabalhadora não está nas urnas, mas nas ruas. É possível que uma das maiores lições das jornadas de Junho em 2013 e da greve dos garis do Rio de Janeiro em 2014 foi ter tornado claro que a luta direta pode trazer algumas conquistas. Por outro lado, também ficou claro que a força das massas se esvai quando estas não possuem objetivos claros e uma organização eficiente. Logo, é preciso que os trabalhadores tomem consciência do que precisa ser feito, de que a solução dos seus problemas sociais não está em uma mudança superficial das relações políticas, mas das relações de produção. Os operários precisam tomar o controle de toda a riqueza que produzem com o seu trabalho.
Para alcançar seus objetivos os trabalhadores devem se auto organizar por fora do Estado, pois este não possui a capacidade de solucionar os problemas sociais a que se propõe. A auto organização dos trabalhadores, por sua vez, deve superar os próprios limites da democracia e, necessariamente, da sociedade capitalista na qual são explorados. Durante os momentos de luta, é necessário fazer assembleias gerais nas quais todos possam se expressar, onde os trabalhadores tomem as decisões em conjunto, e não através de representantes, independentemente da forma que chegaram àquela posição. As ordens não devem vir de cima, e sim discutidas e propostas por todos os trabalhadores que estiverem envolvidos diretamente com as organizações de classe, como um conselho operário. Aqueles que irão realizar as deliberações apenas o farão como discutido nas assembleias, sendo que essas funções sejam apenas para realizar esse objetivo, e podem ser revogados a qualquer momento que a assembleia achar necessário. Essa horizontalidade deve ser buscada nesses conselhos, para evitar qualquer tipo de representação absoluta por qualquer indivíduo. Não devemos nos deixar dividir por categorias, território, origem social. Todos juntos devem discutir, decidir e organizar as ações.
        A história está repleta de experiência significativas de como os trabalhadores são capazes de criar formas de organização política participativa e horizontal. Recentemente, um militante de um movimento social em Guiné Bissau relatou uma experiência interessante sobre como os trabalhadores estavam se organizando em sua luta por luz e água:

Essa forma de organizar é recente na Guiné-Bissau. Decidimos nos organizar assim, de [forma horizontal], porque essa "cultura de representação" que temos há muitos anos não consegue cativar toda a massa. Por exemplo, quando íamos às comunidades para trabalhar, só conseguíamos falar com o presidente ou secretario da [associação] local. Toda comunidade ficava de fora. Então resolvemos nos organizar assim para trabalhar com o povo, permitindo a participação de todo mundo nesse processo. É verdade também que as pessoas [na comunidade] acham um pouco estranha essa forma de se organizar. Estão habituados à "representação" e por isso somos questionados como podemos funcionar sem presidente. Mas já estamos a trabalhar há quase um ano sem presidente e nunca houve qualquer problema. Porque muitas vezes um presidente decide uma coisa que não é vontade da maioria. E nós nunca fazemos isso. Todos são incluídos para que seja tomada uma decisão certa. - Ailton J. (Passa Palavra, 2014)


          Mas essa não foi a única experiência, em 1871, em Paris, um conselho operário tomou posse da gestão da cidade por quarenta dias, movimento que ficou conhecido como a Comuna de Paris. Os trabalhadores se autogestionaram nesse período, logo após a França ter perdido a guerra contra a Prússia e ter enfraquecido. Apesar de ter ficado em vigor tão pouco tempo, a Comuna já tinha promovido diversas mudanças que melhoraram significativamente a condição de vida das pessoas. Tamanho era o sucesso da investida operária, que os governos da França e da Prússia, a pouco mais de um mês inimigos de guerra, se juntaram para dizimar os trabalhadores da Comuna.
Em 1917, os trabalhadores chegaram ao poder na Rússia por meio da revolução soviética. Decerto esse movimento foi fortemente influenciado por ideais internacionalistas e contra a propriedade privada, em prol dos trabalhadores. Por um tempo, as decisões políticas e econômicas foram repassadas para os sovietes – conselhos formados por operários, camponeses e militares. A intensão dos sovietes era tomar o Estado e enfraquecê-lo aos poucos, para que ele se tornasse desnecessário. Porém, essa tática fracassou e em muito pouco tempo houve uma institucionalização do poder e da propriedade, que foi transferida para o Estado, tornando-o mais forte e perdendo de vista todos os princípios que antes existiam naquele movimento. O resultado disso foi a União Soviética que conhecemos hoje.
Experiências como essas são indícios da capacidade dos trabalhadores se auto organizarem de maneira horizontal, não representativa e por fora do Estado, porém trata-se de casos limitados. Nenhum desses exemplos são citados aqui para serem copiados como modelos perfeitos, mas para percebermos a verdadeira força que os trabalhadores possuem em suas mãos. Quando as decisões sobre a produção da vida, das coisas que nos permitem viver em sociedade, estão nas mãos dos trabalhadores, nenhuma outra classe pode sequer pensar em meios para dominá-la. Devemos almejar a construção de uma sociedade nunca vista antes, algo que possamos construir através dos princípios de solidariedade entre os trabalhadores de todo o mundo.
Já que as eleições não nos trazem nenhum horizonte, o que pode nos fortalecer é um método que amplie e estenda nossas lutas, numa união organizada e autônoma de nossas mobilizações. Não podemos enxergar apenas os nossos problemas cotidianos de forma isolada, devemos alimentar a formação de uma solidariedade entre a classe trabalhadora, para que possamos tocar a raiz dos problemas da imensa maioria das pessoas. Somente desta forma mudaremos o curso da humanidade, que já se encontra sem perspectivas diante do mundo do capital.

A liberdade plena se encontra, como nunca antes na história, bem diante de nós, porém, é necessário um grande salto para poder alcançá-la!


Vitória da Conquista, 20 de outubro de 2014
Núcleo do Instituto Lukács de Vitória da Conquista – BA
Labuta

Alexandre de Jesus Santos
Bruno Paixão
Dayane Oliveira
Fabio Cristovam
Glauber Leal
Paloma Oliveira
Uelber Barbosa
Victor Leal



Referências bibliográficas:

FOLHA POLÍTICA. Tiririca admite abandonar a política. 2012. Disponível em: < http://www.folhape.com.br/cms/opencms/folhape/pt/politica/noticias/arquivos/2011/outubro/2492.html> Acesso em 18 de Outubro de 2014.

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