Resenha: Marx, Mészáros e o Estado

terça-feira, 15 de março de 2016

Resenha [1]
Marx, Mészáros e o Estado
Edivânia Melo, Mariana Alves de Andrade e Maria Cristina Soares Paniago (org.)
São Paulo: Instituto Lukács, 2ª reimpressão, 2014, 80 p.

Liana França Dourado Barradas [2]

Nesta coletânea, os pesquisadores interessados nos fundamentos da teoria marxista sobre o Estado terão acesso, de forma introdutória, ao pensamento de Marx e Mészáros no que se refere à análise da essência dessa forma política de dominação e manutenção da exploração do trabalho pelo capital.
A coletânea Marx, Mészáros e o Estado é composta por três artigos que nos oferece uma análise radicalmente crítica do Estado. Os artigos resgatam alguns dos textos clássicos que debateram a temática do Estado capitalista, ajudando-nos a compreender melhor a função social, os fundamentos e o seu desenvolvimento a partir da teoria marxista. Mesmo que de forma introdutória, há a iniciativa de ressaltar que para Marx e Engels o Estado representa desde a sua origem, e ainda mais ao longo do seu desenvolvimento, uma forma social de dominação. As autoras evidenciam que o Estado atua de modo complementar e recíproco com a reprodução material das bases sócio-históricas que sustentam as relações sociais classistas.
No artigo que dá início à coletânea, intitulado “De Marx a Mészáros: a inseparável relação entre o Estado e a reprodução do capital”, Mariana Andrade assinala que o arcabouço teórico que fora produzido por Marx e Engels sobre o Estado ainda encontra ressonância na realidade social contemporânea, tal como propõe a contribuição teórica de István Mészáros. Ao revelar os nexos intrínsecos insuperáveis entre a economia e o Estado, resgata-se a sua natureza classista como órgão fundamental de dominação e opressão da classe dominante sobre a classe dominada. O Estado surge como força social aparentemente neutra, mas que conserva historicamente a imanente função de responder afirmativamente às demandas das classes dominantes, sempre que as lutas de classes colocam em xeque os imperativos inconciliáveis das classes fundamentais. Sobre a consolidação do Estado no contexto da universalização da produção da mercadoria, do assalariamento e da consolidação da propriedade privada capitalista, a autora descreve a história das revoluções burguesas ao revelar o fundamento da emancipação política. Dando continuidade ao pensamento de Marx e Engels, Mészáros delineia, segundo a autora, várias das funções realizadas pelo Estado moderno. Demonstrando os fundamentos da reprodução sociometabólica do capital, Andrade revela que, para Mészáros, o Estado constitui unidade complementar para garantir o comando político do capital e assegurar a produtividade do sistema vigente. Além disso, a autora destaca a importância das funções sociais do Estado moderno no que se refere à ação direta sobre “os defeitos estruturais do capital” (p. 21). Nesse sentido, partindo da argumentação teórica contemporânea de Mészáros, a autora resgata a atualidade da análise de Marx e Engels sobre o Estado e, por essa via, nos leva a refletir sobre as particularidades que essa forma política assume na modernidade, reiterando o seu fundamento, qual seja: estar intrinsecamente ligado à reprodução do sistema do capital.
No artigo seguinte, intitulado “Os limites objetivos da política parlamentar no sistema do capital”, Edivânia Melo resgata o contexto histórico de lutas da classe trabalhadora no século XX, enfatizando também a influência avassaladora e nociva da perspectiva revisionista e reformista para o movimento operário. Explicita, através de Rosa Luxemburgo e Mészáros, que em tempos de configuração de grandes perdas ao avanço da luta socialista e de uma crise estrutural do capital, os rumos do movimento dos trabalhadores sentiram profundamente os impactos dos “descaminhos da esquerda” ao optarem pelo parlamentarismo burguês como campo de intervenção privilegiado. Destaca a autora que a estratégia reformista supervalorizava as reformas sociais, o pacto de conciliação de classes e a política colaboracionista entre o partido socialista e a classe dominante, propondo a transição gradual e pacífica para o socialismo. Melo (p. 30) resgata o pensamento analítico crítico de Mészáros e ressalta que sejam quais forem as tendências reformistas da social-democracia ocidental, os objetivos estratégicos considerados “viáveis” se restringem tão somente ao limite do locus parlamentar. Contra tal visão defensiva, e apoiando-se na análise de Mészáros, a autora reitera que o enfrentamento à dominação política e econômica do capital requer uma forma radicalmente diferente de ação e a ruptura com o sistema do capital, que exige a destruição da tríade Estado-capital-trabalho. Indica também que as mudanças propostas pela social-democracia reformista podem ser reabsorvidas pelo sistema do capital de acordo com as suas necessidades. Melo enfatiza a necessidade de se analisar a direção e os aspectos regressivos das lutas dos trabalhadores ao depositarem suas expectativas de mudanças na proposta reformista. A indagação de fundo reside na análise crítica das perdas históricas da ofensiva socialista para se avançar na perspectiva radical da emancipação do trabalho. Por fim, o desafio teórico e prático historicamente posto ao movimento dos trabalhadores resulta em uma problemática que, embora antiga conhecida dos movimentos contestatórios desde o século XIX, não se tornou menos complexa: reforma ou revolução do sistema do capital? Pelo que fora analisado, a autora faz-nos recordar que mediante a análise da natureza e função social do Estado, a luta pela implementação das reformas políticas, direitos e participação parlamentar não modificará a natureza do Estado. Ao contrário, reforçará as grandes perdas de força de qualquer movimento revolucionário que pretenda trilhar rumo à transição socialista.
Ao final da coletânea temos o terceiro artigo: “Keynesianismo, neoliberalismo e os antecedentes da ‘crise’ do Estado”, no qual Cristina Paniago realiza uma análise do Estado a partir das relações causais entre a crise estrutural capitalista e o neoliberalismo na ordem do sistema do capital contemporâneo. A autora destaca que a crise estrutural é sentida de forma distinta pelo trabalho, que sofre os seus efeitos, e pelo capital, que intervém no curso da crise em seu próprio benefício. O neoliberalismo representa uma das estratégias forjadas pelo capital a fim de se criar as condições necessárias para retirar o sistema da crise, recuperando a lucratividade do capital, tendencialmente em queda. Paniago expõe os equívocos das abordagens que analisam o Estado de forma autônoma, as quais não percebem a relação intrínseca entre economia e política e acabam contribuindo com a mistificação de certa “neutralidade” das formas de intervenção do Estado. Para Paniago (p. 61), “a função social exercida pelo Estado são os interesses em jogo da classe dominante” e, num contexto de crise estrutural, a sua necessária atuação para garantir a reprodução ampliada do sistema do capital torna-se ainda mais importante. Confirmando as análises de Marx e Mészáros, a autora conclui ser característica do Estado capitalista sua atuação enquanto “complemento fundamental à reprodução do capital”, cuja função principal é “garantir a manutenção do sistema como um todo” (p. 62).
O aprofundamento da pesquisa sobre o Estado exige o acesso a todo o debate transcorrido nas últimas décadas nas diversas áreas e correntes do pensamento. A Coletânea resenhada é uma referência segura para as principais teses defendidas por Marx e Mészáros sobre o tema. A compreensão da relação entre Estado e capital permanece incontornável, inclusive para que se logre desmistificar os motivos que contribuíram para o que entendemos, tal como as autoras, como uma regressão histórica da ofensiva de luta e organização dos trabalhadores rumo à transição socialista.


[1] Resenha publicada na Revista Crítica Marxista nº 40, 1 ed. 2015.
[2] Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social - UFRJ; integrante do Grupo de Pesquisa “Lukács e Mészáros: fundamentos ontológicos da sociabilidade burguesa” e do Instituto Lukács. E-mail: lianafdbarradas@hotmail.com

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